Alerta da Faculdade de Ciências – AVISO

Date: Thu, 5 Jun 2008 03:52:12 +0100

Lendas urbanas: detergentes cancerígenos

Não costumo responder a este tipo de correspondência electrónica. Porém, entre as muitas coisas que me irritam solenemente, uma merece particular destaque: a PSEUDO-CIÊNCIA.
Entre os vários mitos urbanos com argumentos de autoridade duvidosamente científicos, casos de pessoa que conhecem outras pessoas a quem aconteceu algo ou, meramente rumores, há alturas em que é preciso, em nome do bom senso, desmistificar o mito.
Não, a gasolina não pode inflamar-se se o telemóvel tocar (o aviso nas bombas é para a frequência hetziana não interferir com a electrónica local); não, a Judiciária não têm conhecimento de qualquer tentativa de extração de rins numa loja de chineses; sim, a laranja à noite pode matar, caso alguém vos atire uma à cara enquanto estão podres de bêbedos no Bairro Alto e, em consequência, batam com a cabeça no passeio… Mais mitos poderia enumerar, mas, este em especial, dada a forma como se reveste, merece esta réplica.
Abaixo transcrevo o artigo da Doutora Palmira Silva, publicado no De Rerum Natura em 29/02/2008:


Ontem recebi uma mensagem com assunto «ALERTA importante» que abri por o remetente ser uma pessoa conhecida. Li por alto a mensagem, um chorrilho de sandices que tinha circulado nos Estados Unidos em 1998 e que versava sobre o «Lauril Sulfato de Sódio», supostamente «uma substância altamente cancerigena. (1 caso em 3 adquire)».

A adaptação nacional desta lenda urbana, aparentemente iniciada por vendedores de produtos «alternativos» ou «100% naturais», conseguia a proeza de ser ainda mais cretina que a versão original e por isso nem pensei mais no assunto uma vez que pensei que apenas os erros de português fossem suficientes para não enganar ninguém. Erro meu: a minha caixa de correio está inundada com pedidos de esclarecimento sobre a dita mensagem, alguns, tal como aconteceu à Sofia, de familiares. Li de novo o «Alerta» inicial, que numa leitura mais atenta revelou disparates que escaparam à leitura na diagonal.

Como todas as «boas» lendas urbanas, esta iniciava-se com um argumento de autoridade: a cretinice que se seguia era supostamente da autoria da (inexistente) Faculdade de Ciências de Lisboa. O alerta indicava que os leitores «Devem procurar o nome do composto em inglês: Sodium Laureth Sulfate» aparentemente porque quem o escreveu é tão ignorante que confundiu o lauril éter sulfato de sódio (SLES) com lauril ou dodecil sulfato de sódio (SLS ou SDS), o primeiro muito utilizado em cosmética, o segundo mais utilizado em produtos de limpeza (e em laboratórios de investigação, há pelo menos uns três frascos de SDS no meu).

Reza a mensagem que «Esta substância faz parte da composição da maioria dos champôs pois os fabricantes utilizam-na por ela produzir muita espuma a baixo custo. No entanto o LSS é usado para lavar chão de oficinas (é um desengordurante)».

Estes sais produzem muita espuma porque são moléculas tensioactivas, isto é, baixam a tensão superficial da água. São igualmente moléculas anfifílicas e estas espécies agregam-se em água formando micelas, com as cabeças hidrofílicas para fora e as caudas hidrofóbicas no interior, como se tivéssemos gotas de gasolina dispersas em água. Assim, gorduras e outras substâncias que não sejam solúveis ou miscíveis com a água são dissolvidas no interior das micelas. Soluções de detergentes, qualquer detergente, são bons desengordurantes e é normalmente para esse fim que as utilizamos, seja em detergente da roupa ou do chão, shampoo ou gel de banho.

Ambos os detergentes (biodegradáveis) são derivados do ácido láurico, um ácido gordo saturado que se encontra em vários óleos vegetais – é o principal constituinte do óleo de coco, cerca de 50% -, e no leite humano (onde constitui cerca de 6% da gordura total). A sua toxicidade é baixissima embora possa ser irritante para membranas mucosas (não convém muito esguichar óleo de coco para os olhos e o mesmo acontece com a espuma obtida com estes sais).

Há uns anos recebi outro pedido de esclarecimento em relação a um composto igualmente identificado como muito cancerígeno. Nessa altura o «vilão» era um aditivo alimentar, o E330, que não passa do ácido cítrico presente em inúmeras frutas, citrinos e, por exemplo, maçãs. Algumas das pessoas que esclareci não ficaram convencidas à primeira porque teimavam que embora o E330 e o ácido cítrico do limão fossem uma e a mesma molécula, a primeira era um «químico» e o sumo de limão era um produto natural.

Para além de não acreditarem nos disparates que todos recebemos por correio electrónico, tal como no caso do esqualeno, esperemos que cada vez mais pessoas se apercebam que o prefixo bio ou o 100% natural no nome de um composto químico não lhe altera as propriedades. A perigosidade quer do SLES quer do SDS não aumenta drasticamente pelo facto de serem obtidos por transformação química de óleos vegetais. Podem irritar peles mais sensíveis por serem bons detergentes, isto é, removerem eficientemente a camada de óleo da pele, mas não são tóxicos muito menos cancerígenos!

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