Archport PhD …

Date: Wed, 12 Jan 2011 03:12:32 +0000

Viva!

Vários motivos levaram-me a, este ano, suspender a licenciatura em Arqueologia, área que continua a ter para mim o mesmo interesse, mas, causou-me uma enorme desmotivação. O funcionamento do sistema académico, sobretudo pós-Bolonha e, mais vergonhosamente, nas ciências (ou que se fazem passar por tal) sociais e humanas, como referido no artigo que o Mataloto nos enviou, foi um dos principais.

Gostaria, portanto, de tecer algumas considerações sobre o que se discute aqui, começando pela comparação que já alguém nesta lista de discussão fez com o caso de Direito e do acesso à Ordem dos Advogados: como ex-aluno de Direito tenho, necessariamente, de rejeitar este tipo de comparações. Uma Ordem profissional não serve para fiscalizar nem avaliar a qualidade do ensino. Essa tarefa é das Universidades e da Tutela. Uma Ordem, seja ela qual for, serve para garantir que os profissionais que certifica são competentes para desempenhar as tarefas que lhes são pretendidas. Talvez por isso não convenha a muito boa gente a hipotética Ordem dos Arqueólogos. Quantos “profissionais” no activo, quantos recém-licenciados ou mestrados ou doutorados, quantas “bestas sagradas” teriam o acesso rejeitado ou dificultado? Justamente? Sem dúvida!

E as Universidades estão cheias de teses da treta! É um facto! E não é só em Arqueologia, onde se passa dois ou quatro anos a “estudar” líticos ou fragmentos de cerâmica – entenda-se que “estudar”, neste caso, significa apenas medir, descrever, desenhar e fotografar artefactos que, muitas vezes, já foram medidos, descritos, desenhados e fotografados por meia-dúzia de pessoas antes sem que se acrescente nada de novo ao conhecimento sobre o sítio de onde provêm ou as sociedades que os produziram – e chama-se a isso uma tese… É claro que, em muitos casos, uma tese a sério pode ser um risco para a carreira do aspirante a arqueólogo, não vá ele esbarrar em conclusões que ponham em causa o trabalho e as teses sobre as quais os seus professores e as “bestas sagradas” contruiram as suas carreiras e sustentam as suas cátedras, risco esse que se aprende desde o início do curso quando, por exemplo, postular nos exames as interpretações histórico-arqueológicas, baseadas mais nas convicções políticas do professor que na realidade dos factos conhecidos, é condição sine qua non para fazer a cadeira.

A maior parte dos mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos serve unicamente para um propósito: o tal esquema em pirâmide que o artigo do The Economist fala! A minha Faculdade, que em dois anos aumentou as propinas de 700€ para 1000€ sem que isso se reflectisse numa melhoria da qualidade ou das condições de ensino, porventura não será das piores! Mas, também não escapa ao funcionamento em ciclo-fechado e autismo em relação às necessidades do mundo real. Formar arqueólogos para essa coisa horrível e degenerada que é o sector privado? E depois os grandes culpados de tudo e mais alguma coisa são os organismos públicos que não têm respeito pelo património! Mas, quando se trata de produção científica da que é importante, pouco se faz – nem escavações há para os alunos todos! Como é que se explica isto quando a maior parte dos professores, são bons professores? Pela falta de verbas? Mas há mestrandos e doutorandos e bolsas de investigação… É o tal esquema em pirâmide a funcionar: o trabalho faz-se de baixo para cima, a academia consome-se a ela própria. Porque melhor que um bom trabalho, só uma grande quantidade de trabalhos publicados – os bons curricula, hoje, são os maiores. E assim se pode acabar uma licenciatura em Arqueologia (e até um doutoramento) sem alguma vez se ter pegado num colherim!

A carreira académica hoje, a não ser para aqueles que são realmente muito bons no que fazem ou têm quem os apadrinhe com concursos feitos à medida, é um mito! Mas, para conveniência das Universidades, continua-se a incentivar a perseguição da quimera em vez de reformular os métodos e adequar o ensino às exigências do mercado. E, salvo os bons exemplos que ainda há, as Licenciaturas de três anos apenas vieram piorar o que já estava mau. Um Mestrado, por exemplo, que pode render entre 3000€ e 20000€ às Universidades públicas, só torna alguém mais competente numa área específica (normalmente, a mesma dos professores que beneficiam com o trabalho dos mestrandos), quando o mundo real exige competências transversais. Em Arqueologia, essas competências podem ser adquiridas, por exemplo, numa exploração de carácter diferente: a estagiar nalguma empresa que, em vez de pagar a arqueólogos, apresenta orçamentos mais baixos à custa de trabalho voluntário.

Neste panorama, será que se está realmente a formar capital humano? Ou a catadupa de Mestrados que Bolonha veio trazer não passa areia para atirar aos olhos de alguém, como pôr os alunos do 9º ano a fazer provas de aferição com aritmética da 4ª classe, só para a OCDE bater palminhas ao nosso desgoverno e os nativos ficarem de peito inchado?

Cumprimentos!
António Gaito

Date: Mon, 10 Jan 2011 23:07:39 +0000
From: xxx
To: yyy
Subject: Re: [Archport] PhD …

Bem, que posso mais acrescentar…

A questão essencial reside, talvez, na inércia de quem, sobre a quadratura académica, recebe mais 200 € por mês, no ordenado, para realizar investigação. Esta investigação teria como objectivo actualizar os programas e dados das formações (aulas), ano após ano, e, sem dúvida, trazer e despertar o interesse na formação daqueles que pagam e bem por um serviço “profissional” e de “qualidade”. O que se verifica, na esmagadora maioria dos casos (mais de 90%… sem querer ser exagerado), é que, o subsídio académico para a investigação é já um dado adquirido como ordenado base. Que piada… E depois dizem alguns…. claro… mas 100, 150 ou 200 € por mês não são suficientes para atingir essa “investigação” e proporcionar mais qualidade…. pois claro, é evidente que entre 1500 a 2500 € por ano não chegam para fazer investigação…. hum…. claro que não. Assim sendo, “vou ficar com esse acréscimo de ordenado, vou pedir apoios aos centros, à FCT, a sei la quem e vou tentar fazer algo para o CV… e para o público ver… Contudo, acho que, só daqui a 30 anos é que vou ter material suficiente para acrescentar novidades de fundo nas minhas aulas académicas….”. Dá que pensar… e isto é só a pontinha o Icebergue….
Relativamente à FCT, PHD, Pos-DOC em português e outras politiquices…. Bem, basta pensar, nomeadamente, no interesse e na importância de realizar um estudo financiado (FCT / outros), durante 4 a 5 anos sobre a cerâmica comum romana de um tal sítio, imaginando que esse financiamento (6000 a 7000 €) justifica andar a medir, pesar e reflectir sobre formas e utilidades de uma qualquer artefacto que, na pior das hipótese, terá já 120 a 150 anos de investigação científica sem conclusões maiores do que: “esta panela de cerâmica comum romana pesa 450 gramas e servia para conter líquidos e era produzida nos barreiros localizados entre as Baleares, a Catalunha, Aragão, Galiza, “Scalabis”, “Clunia”, Algarve e Valongo…. é que os minerais que constam nestes cacos e as suas concentrações mineralógicas podemos encontrar em quase todos os barreiros da P.I. menos num…. que agora está debaixo de água…. Mas eu acho que o projecto merece ter a pontuação máxima…..
Ou talvez seja importante andar a receber una BECA para estudar a dinâmica espacial durante a Pré-história antiga com base nos ossos de javali selvagem (Sus Scrofa) que habitava nos mesmos locais onde se encontravam os habitats do Gravetense (época das primeiras manifestações “artísticas”)…. ou melhor ainda…. hum… eu acredito que o meu projecto está muito bem financiado….. Eu merecia…. o meu projecto sobre a importância do arame farpado para a protecção do património arqueológico é algo extremamente útil…..
PHD, POS-DOC, BOLONHA, FORMAÇÃO ACADÉMICA, ENSINO DE QUALIDADE, FCT…..Hummmmmm. Pão e Circo, Pão e Circo…

Tenham mas é Juizo.

Em 10 de janeiro de 2011 16:44, rui mataloto zzz escreveu:

Creio que a lucidez do artigo é absolutamente avassaladora sobre o estado da situação um pouco por todo o dito “Mundo Ocidental”; todavia, agrava-se num país, como o nosso, onde a investigação não é carreira, e a saída universitária escassa e muito “tortuosa” …
Para reflectir. “PhD” ou não “PhD”? Pos-doc? Enfim, para aqueles que conseguem bolsas, sempre é um bom subsídio de desemprego para jovens mestres e Doutores …
Rui Mataloto

http://www.economist.com/realarticleid.cfm?redirect_id=17723223

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