Artigo acabado de publicar

Date: Sat, 24 Jan 2009 00:11:31 +0000

Aprendi a evitar, quando se trata de lidar com vocês, assuntos ligados à arqueologia que, como cedo percebi, não vos despertam o menor interesse. No entanto, acabei de receber um artigo, publicado no número zero de uma revista que não resisto a divulgar. Os motivos para o fazer são são vários:

1º diz respeito a um dos períodos da pré-história mais controversos e, talvez não seja por acaso, um dos que mais me interessa – o Calcolítico;

2º como qualquer ciência de carácter social, a arqueologia muitas vezes é utilizada para servir agendas e interesses meramente políticos. No caso do Calcolítico (que, na Península Ibérica, podemos balizar na segunda metade do terceiro Milénio antes da nossa era), a antítese entre difusionismo – possibilidade de sociedades simples se terem tornado mais complexas devido à interacção com sociedades complexas exógenas – e neo-evolucionismo – modelo explicativo de cariz marxista que defende a irrelevância desses contactos, tentando provar que o caminho natural de qualquer sociedade simples (equalitária, como lhe chamam) é a complexificação, motivada pela necessidade que as elites emergentes têm de estabelecer estruturas de domínio que organizem o colectivo numa relação dialética de poder – tem levado o debate entre arqueólogos a situações que tocam o extremismo ideológico. No seguimento disto, este artigo representa, numa lógica académica séria, o enterrar do modelo evolucionista dogmático que, no nosso país, é representado, sobretudo, pelo Carlos Tavares da Silva e pelo seu cão de fila, a Joaquina Soares;

3º este artigo faz uso da etno-arqueologia e da arqueologia de género (também conhecida como arqueologia feminista), ramos típicamente esquerdistas, para contrapor a um modelo, também ele, de esquerda;

4º as possíbilidades aqui apontadas, respeitantes ao copos do Calcolítico Inicial da Estremadura, vão de encontro àquilo que tenho vindo a hipotetisar (e já fui ridicularizado por colocar essa possibilidade) acerca da placas de xisto, do mesmo período, abundantes no Sudoeste peninsular, o que eu encaro como uma pequena vitória pessoal. Trata-se da possibilidade de a decoração destes artefactos ser algo a que podemos chamar de proto-heráldica: uma determinada forma estética corresponder a uma identidade territorial/social;

5º após ter sido lançada à discussão a teoria sobre o principal motivo da revolução dos produtos secundários ou, mais simplesmente, neolitização, que defende o papel primordial da produção de bebidas alcoólicas, fermentadas a partir de cereais (cerveja!), como o motor da sedentarização e domesticação das primeiras plantas utilizadas na agricultura, este artigo aponta para a probabilidade de um dos elementos materiais mais representativos do nosso Calcolítico Inicial, os copos tipo Vila Nova de São Pedro, terem sido usados em manifestações de carácter mágico-religioso, recorrentes ao álcool. Os seja, exagerando bastante, bebedeiras colectivas;

6º este artigo é co-assinado por um aluno português, estudante em Madrid. Não acredito, conhecendo o meio arqueológico nacional que, caso este rapazote fosse estudante de uma das nossas universidades, tivesse juntado o nome a isto… Seria um autêntico suicídio académico! Aquilo que para vocês, leigos na matéria, pode ser um vulgaríssimo artigo científico, para grande parte do meio arqueológico nacional (que ainda vive numa lógica de clientelismo e modelos explicativos dogmáticos) é uma heresia, vinda de alguém sem curriculum para falar sobre o assunto que, se estudasse em Portugal, teria a carreira arqueológica arruinada por causa disto – já aconteceu demasiadas vezes…

Expostos os motivos que me levam a enviar-vos este artigo, resta-me esperar que alguém tenha pachorra para o ler. O link é http://www.revistasapiens.org/Biblioteca/numero0/Loscoposcanelados.pdf . Caso tenham curiosidade em ver o que são estes copos, podem consultar http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v6n2/folder/181.pdf . Só mais duas informações que podem ajudar à compreensão: quando se dá a data de 5040+/-160 BP, trata-se de uma datação a partir de Carbono 14. BP significa Before Present que, em termos de radiocarbono, conta o presente como o ano de 1950. Como se trata de uma data não calibrada, a leitura imediata deve ser 5040 anos antes de 1950, mais 160 anos ou menos 160 anos. Uma calibração a um sigma (se alguém estiver interessado, posso explicar o que é), daría, em anos de calendário, qualquer coisa como um período entre 3250-2930 ANE (Antes da Nossa Era ou, Antes de Cristo). A referência elogiosa ao professor Vítor Gonçalves, o meu director de curso, que é feita aqui, é tão natural, tratando-se de Calcolítico como, durante uma missa, dizer bem de Cristo!

Cumprimentos!

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