Mais um mito desmistificado

Date: Sun, 14 Feb 2010 01:03:47 +0000

Com as devidas vénia e referência (http://tira-tira.net/2009/08/14/caralho-e-cona-finalmente-na-nossa-lingua/) , para desmistificar de uma vez por todas o mito acerca da etimologia do portuguesíssimo “caralho”, segue abaixo uma transcrição que expôe o mito urbano que associa esta palavra ao mastro principal ou à cesta de vigia dos navios da expansão ultramarina. De facto, há registo de “caralho” no Séc XII, muito antes dos avanços na engenharia naval ocorridos no Séc. XV. Embora não tenha a mística nacionalista apresentada no mito, julgo de interesse académico a divulgação para que possamos, com pleno conhecimento do seu significado, andar de “caralho na boca”.

Cummprimentos!

António Gaito

Caralho e cona finalmente na nossa Língua

August 14th, 2009 Depois de anos de luta por parte de entusiastas do bom uso da língua – onde se incluem, entre muitos outros, Saramago, Graça Moura ou CiEL -, os guardiões da chave do sistema, i.e., as editoras que publicam os dicionários e, por esse meio, “legitimizam” o uso que lhe damos (à língua), começaram finalmente a ceder e a dizer “não!” e “ah, chega, foda-se!”, à patética censura que tem espirrado nhaca viscosa sobre os grossos volumes que registam o nosso vocabulário, e que se pretendiam completos e rigorosos.
A atitude puritana, que bloqueava a integração de termos tão coloridos quanto essenciais à comunicação do dia-a-dia de portugueses e portuguesas, e que pretendia, porventura, colocar tão distinto povo, no plano do inter-relacionamento oral, ao nível de uma qualquer comunidade evangélico-creacionisto-fascista perdida no meio de uma metrópole norte-americana, estará, assim, à beira de ficar tão extinta como os dinossauros e a Green Sands.
É, pois, com manifesto prazer e, até, algum alívio, que desde há algum tempo podemos encontrar nos dicionários online da Porto Editora e da Priberam as palavras que todos usamos no nosso quotidiano, mas que, “misteriosamente”, se recusavam a ser dicionarizadas – algo que enfurecia, e com toda a razão, linguistas e simpatizantes, dando azo, inclusive, a consultas em tom de protesto enfurecido no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (Deus da Língua na Internet, e nosso pequeno consolo pela dor da resistência ao assassinato dos particípios passados duplos).
O “sistema” desistiu finalmente de ser pateta. “Caralho”, “cona”, “foder”, verdadeiros sustentáculos da nossa cultura e da nossa língua, são agora “oficiais”, e estão disponíveis abertamente e sem registos e “passwords”, para consulta de todos os que os melhor queiram entender. As definições ainda não serão perfeitas, nem tão completas quanto seria de desejar, mas temos de compreender que se trata de um esforço levado a cabo por pessoas que, até há pouco, se referiam a termos desta natureza como “a palavra começada por c, com quatro letras”. Será, talvez, uma questão de tempo, até que deixemos de ver nos média mainstream registos como “c…” ou “f…” e outras parvoíces? Ficamos à espera.
Foder
(latim futuo, -ere, ter relações sexuais com uma mulher)
v. tr. e intr. 1. Cal. Ter relações sexuais.
v. tr. e pron. 2. Cal. Deixar ou ficar em mau estado, destruído ou prejudicado.
Cal. foda-se: expressão designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.
Sinónimo Geral: fornicar
(priberam.pt)
verbo intransitivo: vulgarismo, ter relações sexuais; copular
verbo transitivo: vulgarismo, prejudicar; deixar em péssimo estado
verbo pronominal: vulgarismo, prejudicar-se; ficar em péssimas condições;
vulgarismo, foda-se! exclamação que exprime espanto, admiração, impaciência ou indignação
(infopedia.pt)
A esquerda “paritária” poderá ficar irritada com a referência à origem do termo pela Priberam (sexo com uma mulher), por cheirar não só a homofobia como a um asqueroso sexismo. Os gays quando vão ao cu um ao outro não estão a “foder”? A mulher não “fode” – a sua prática tem de ser agriolhada por formas verbais apassivantes? -, só é “fodida”? Por outro lado, essa ala política radical louvaria a Porto Editora que ignora essa origem potencialmente não-PC. Uma e outra, no entanto, no que toca à definição, generalizam q.b.: “ter relações sexuais”. Deste modo, a palavra “foder”, na actual acepção, não descrimina género (mulher também fode), “activos” ou “passivos” (gay que leva fode, mas gay que dá fode também), ou espécie (foder um cão, um tronco de árvore ou uma fotocopiadora, tudo é válido, mas apenas no plano da língua, pois no mundo real são actos vis, além de que o toner é cancerígeno).
Mas, em defesa da Priberam, vestindo a toga do advogado do diabo – não, estou a gozar -, o que eles fazem apenas é referir a origem latina da palavra, por isso, ei, não venham com merdas. Há muitos anos era assim que “foder” se concebia. Bolas, ainda em meados do século XIX, a Rainha Victoria não acreditava que as mulheres pudessem sequer “foder” umas com as outras, coitada.
A definição é, afinal, bastante equilibrada e insusceptível de incomodar as pessoas mais sensíveis do Bloco de Esquerda. Atente-se ao equilíbrio paritário, inclusive no que toca à explanação dos sentidos figurados: um homem tanto pode ficar todo fodido (ferido, magoado) por ser atropelado por um carro, como pode foder um carro todo (atirá-lo contra um muro, quebrar os vidros com um taco de basebol, ignorar os períodos de revisão, etc.)
Caralho
s. m. 1. Cal. Pénis.
interj. 2. Cal. Expressão designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.
(priberam)
nome masculino
vulgarismo pénis;
caralho! exclamação que exprime espanto, admiração, impaciência ou indignação
(Do lat. *caraculu-, «pequena estaca»)
(infopedia)
De registar, apenas a flexibilidade da palavra. Nos exemplos, daríamos primazia também à expressão de alegria (”caralho!”), ao lado do espanto (”caralho!”) ou indignação (”caralho!”), nem que fosse por ser uma emoção mais positiva. Quando à origem do termo, desta vez é a Porto Editora que ganha, devendo frisar-se que a alegada origem nos cestos do topo dos mastros das caravelas é uma parvoíce tão grande como aquelas historinhas-da-Internet-para-as-pessoas-que-acreditam-em-tudo-o-que-está-na-Internet que explicam a origem de “fuck” como a sigla de “fornicar com consentimento do Rei”. Há gente que cai em tudo, pff.
Cona
s. f. cona (ô)
(latim cunnus)
s. f. Cal. Vulva; vagina.
(priberam)
nome feminino
vulgarismo órgão sexual feminino
(Do lat. cunnu-)
(infopedia)
Cona, nunca gostei muito (da palavra). Um professor do liceu, já há muitos anos, explicou que a origem do termo era “rede” em latim. Não sei se o professor estava certo ou errado, mas essa alegada origem está “na Internet”. O que sei é que, hoje em dia, esse professor fodia-se bem fodido por ter essas conversas com miúdos de 12 ou 13 anos.
O site da Priberam oferece outros tipos de informação aos utilizadores, como poder ver que no dia 1 de Junho houve um pico com 3547 procuras por “caralho” (num dia normal, apenas cerca de 500 pessoas fazem essa pesquisa). O mais relevante, no entanto, é a ligação para “palavras relacionadas”, mas é também aí onde se constatam as limitações que ainda existem no tratamento do nosso vocabulário.
Se formos a “cona”, o dicionário indica “conanas”, que define da seguinte forma: conanas (alteração de cona) s. m. 2 núm. Pop. Fracalhão; maricas. Ora, perguntamos, mas que caralho de palavra é “conanas”? “Coninhas” (não dicionarizado ainda) conhecemos (e até achamos simpático), mas “conanas” parece fruto de – não, não, deixem-me reformular, parece um fruto, ou um cocktail que se serve num bar do Bairro Alto, e que é uma grande merda porque só existe por causa do nome “engraçado”.
Nas relações com “caralho”, por outro lado, a única coisa que arranjaram foi “pénis”. Apesar da definição bastante lata, faltam exemplos de utilização e derivações do termo. Deveriam registar-se algumas utilizações mais frequentes em expressões, como “vai para o caralho!”, “- comò caralho”, “caralho mais velho”, etc.
Ainda quanto ao “caralho”, sugeríamos, desde já, a entrada “caralhãozãozorro!” (cal. s.m. forma de expressar um estado de irritação em que se está fodido para lá de fodido), apesar da dificuldade em integrá-la na língua por causa dos dois tiles.
Até ao momento, não nos foi ainda possível verificar se os termos agora “aprovados” já se encontram nas últimas edições em papel dos principais dicionários destas editoras, mas prevemos que o dia em que um tradutor que pretenda passar o insultuoso “vai-te lixar” por um “fuck you” do inglês, ou equivalente de outra língua, seja despedido com justa causa, está aí já ao virar da esquina. E finalmente, finalmente – para citar Brel, pois este texto saiu parquíssimo em citações -, o comum cidadão consumidor de cinema, sobretudo anglófono, deixará de achar peculiar que o banalíssimo “mas que caralho?!” seja usado para traduzir o seu equivalente natural “what the fuck?!”

P.S.: O site da Priberam tem as conjugações dos verbos, pelo que agora ninguém tem desculpa para escrever mal frases como “e se fodêssemos?”, “naquela tarde em que fodêramos”, “se vós foderdes muito, sereis mais saudáveis”, “foderíamos se não te tivesses armado em parvo”, “entrei no quarto e vós fodíeis, suas rameiras”, etc.

2 Respostas to “Mais um mito desmistificado”

  1. قطر Says:

    Wow, incredible weblog structure! How long have you ever been running a blog for?
    you make blogging glance easy. The total look of your web site is excellent, let alone the content!

  2. António Sobral Says:

    o caralho mais acona fizeram uma patuscada. O caralho comeu t
    udo, acona ficou sem nada. Aprendido na escola primária em 1937.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: