Pedras e Pedreiros

Date: Mon, 8 Oct 2007 23:50:01 +0100

Quando a construção desenfreada leva a que se apague a memória da ocupação humana de um território, temos um problema de mentalidades, gravíssimo, que urge resolver. O património histórico e cultural de um povo é tão importante como o seu desenvolvimento económico. Não se trata isto de mais um argumento contra a construção em Odivelas, mas, nalguns casos, é! Vejamos o exemplo de Loures: durante a construção das acessibilidades para um espaço comercial, descobriu-se vestígios de uma villa romana, o que levou à suspensão dos trabalhos enquanto se estudava o sítio arqueológico, com o patrocínio da empresa em questão. Outro exemplo para todo o país vem de Lagos. O Monte Molião, comprado por um árabe para loteamento, foi readquirido pela Câmara Municipal, de modo a proceder ao estudo da ocupação humana naquele sítio. Há, até, quem coloque a hipótese de ser aquele local a antiga laccobriga.

Em Odivelas, porém, cultura é uma palavra que quase se resume ao nome de uma empresa a que costumo chamar de Circus Máximus. Será demasiado maçador insistir na degradação do túmulo de D. Diniz? Se calhar até é, tendo em conta que muitos odivelenses não sabem onde fica e, as verbas necessárias ao restauro, podem pagar quatro concertos do Tony Carreira, no Parque do Silvado. Vamos, então, abordar um tema que me chegou aos ouvidos recentemente: os sítios calcolíticos do Castelo da Amoreira e Pedreira do Aires.

Estamos, portanto, a falar de pedras… Calhaus, se não quisermos especificar a utilidade que cada um teve. Calhaus que eram trabalhados nos Pedernais (daí, talvez, o nome) e utilizados pelos camponeses que habitavam o actual Cabeço da Amoreira/Parque de Merendas/parque de antenas de telemóvel/parque de entulho/parque de consumo de drogas/parque de actividades potencialmente reprodutivas. Calhaus esses que podem ser rastreados como integrantes de rotas comerciais ao longo de toda a bacia do Trancão. Calhaus de várias formas e tamanhos que atestam a presença de comunidades humanas há seis mil anos atrás, já num estado em que se começava a esboçar algo como uma economia, integrando trocas comerciais e actividade agro-pecuária, para além da caça e recolecção. Calhaus provenientes de «um sítio parcialmente destruído, pelo que a realização de trabalhos arqueológicos de emergência na plataforma ainda preservada torna-se indispensável para a sua compreensão» (Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 7, numero 1, 2004, pag. 160). Calhaus, enfim, que nada podem contra o avanço das moradias na Ramada. Calhaus que, tal como a escola E/B 2/3 Vasco Santana, nada podem contra as antenas de telemóvel.

A Câmara de Odivelas tem responsabilidades na preservação do património arquitectónico e arqueológico. A Câmara sabe que uma dezena de sitos de interesse já foi destruída no concelho. Mas, a Câmara, essa entidade filha do republicanismo, gerida por cidadãos que dedicam o seu esforço à coisa pública, tem outras prioridades. Depois dos crimes urbanísticos, paisagísticos e contra o património histórico de Odivelas, cometidos um pouco por todo o concelho, vem aí mais um: a urbanização da Quinta dos Cedros, em Famões. Os construtores agradecem! As contas da Câmara, também. E como as águas já não chegam à Paiã, nem temos o direito de ficar a ver navios

António Lopes

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