Estudo do B.P.I. revela os verdadeiros custos das políticas energéticas

 

Viva!

Agora que concluí a análise do estudo que o B.P.I. fez sobre o nosso sector energético, estou em condições de afirmar algumas coisas: tenho razão na minha proposta para um plano energético nacional e tenho razão nas críticas aos subsídios para energias renováveis. Por outro lado, a minha opinião sobre as eólicas mudou – aprendi que é uma tecnologia competitiva e os subsídios que recebem é que as tornam um peso para a rede nacional e para os consumidores. Fiquei desiludido com a biomassa, mas, isso acontece porque no paradigma actual ninguém fez uma aposta séria nesta fonte de energia. E fiquei surpreendido com as fotovoltaicas – ainda são piores do que eu pensava!

Como o documento em questão tem quase trezentas páginas, fiz um breve resumo dos pontos e conclusões fundamentais:

• A eficiência energética (quantidade de energia consumida por cada unidade do PIB) do país diminuiu desde que se apostou em força nas renováveis (p.10);

• O sector dos transportes é responsável por quase 40% da energia consumida, face aos 32% médios da U.E., o que revela uma necessidade de modernização da nossa frota automóvel (p.12);

• O peso dos licores sulfíticos na produção de energia primária revela que a silvicultura e a indústria do papel estão de parabéns, o que não acontece com o cultivo de beterraba sacarina e refinação de açúcar, sistematicamente sabotados pelas políticas agrícolas pós-25 de Abril (p.15);

• O aproveitamento de energia geotérmica nos Açores contribuiu mais para o nosso balanço energético que o investimento milionário em fotovoltaicas (p.16);

• «Por forma a atingir em 2020 um rácio de autonomia energética de 26% será necessário recorrer ao incremento da exploração das fontes renováveis de energia ou avaliar a possibilidade de serem exploradas as jazidas de urânio existentes em Portugal, matéria-prima utilizada, a par do tório, na produção de energia nuclear» (p.16);

• Como é que a cogeração, que se enquadra na Produção em Regime Especial e, como tal, é subsidiada, é responsável por 6% das importações de energia? (p.22);

• Como é que em período de recessão económica, o défice da nossa balança energética aumenta, de 2,9% do PIB em 2009 para 3,4% do PIB em 2010, quando o lógico seria diminuir? (p.23);

• Se não fosse a importação de bens energéticos, a nossa balança comercial seria positiva em 2012 (p.24);

• Os custos da Produção em Regime Especial – que representa 35% da produção – e do monopólio de transporte da R.E.N. são imputados, sobretudo, aos consumidores domésticos que representam menos de 10% do consumo e pagam a electricidade 53% mais cara (p.29);

• Custo médio de investimento por MW instalado em milhares de Euros: gás natural – 650, mini-hídrica – 1200, eólica – 1300, grande-hídrica – 1500, carvão – 1600, biomassa – 2500, fotovoltaica – 3500;

• O gás natural é, claramente, a fonte de energia mais racional, tendo em conta o nosso paradigma de consumo, pelo que se pode ver nesta tabela (p.36) em que O&M significa operação e manutenção e MP significa matéria-prima:

 

• Se pesarmos a capacidade de produção e a disponibilidade de matéria-prima, o carvão, o gás natural e a biomassa são as melhores fontes de energia (p.37);

• No final de 2010, as eólicas representavam 20,7% da potência total instalada. «A tarifa média […] atingiu cerca de 92 euros por MWh; no entanto, para projectos que entrem em operação em 2011 a tarifa média indicativa deverá ascender a cerca de 75 euros por MWh» (p.39);

• No final de 2010, as fotovoltaicas representavam 0,7% da potência total instalada. «A tarifa média […] atingiu cerca de 330 euros por MWh; no entanto, para projectos que entrem em operação em 2011 a tarifa média indicativa deverá ascender a cerca de 280 euros por MWh» (p.42);

• No final de 2010, as mini-hídricas representavam 2,3% da potência total instalada. «A tarifa média […] atingiu cerca de 89 euros por MWh; no entanto, para projectos que entrem em operação em 2011 a tarifa média indicativa deverá ascender a cerca de 77 euros por MWh» (p.44);

• No final de 2009, as centrais as biomassa representavam 0,6% da potência total instalada. «A tarifa média […] atingiu cerca de 108 euros por MWh [em 2010]; no entanto, para projectos que entrem em operação em 2011 a tarifa média indicativa deverá ascender a cerca de 118 euros por MWh» (p.46);

• No final de 2010, as grandes hídricas representavam 25,5% da potência total instalada. Além do preço de mercado, há subsídios pela manutenção das barragens, o que coloca o preço do MWh entre 45 e 67 Euros (p.48);

• O gás natural é «uma tecnologia madura e é aquela que, actualmente, permite atingir o mais alto nível de eficiência de produção de electricidade a partir de combustíveis fósseis e o menor nível de emissões de CO2 por unidade de energia eléctrica produzida» (p.49);

• No final de 2010, o gás natural representava 22,7% da potência total instalada. Os custos de manutenção e operação são subsidiados, o que coloca o preço do MWh entre os 59 e os 88 Euros – a obrigação de pagar pelas emissões de CO2 inflacionam os preços para 64 a 93 Euros (p.50);

• No final de 2010, as centrais as carvão representavam 9,8% da potência total instalada. As centrais a carvão recebem compensações económicas para enfrentar os custos de disponibilidade (ou seja, cobrir a intermitência das renováveis) e o pagamento obrigatório pelas emissões de CO2, o que coloca o preço do MWh entre 60 e 80 Euros – se o CO2 não fosse taxado, o preço ficaria entre 49 e 69 Euros (p.52);

• Comparativo de custos das fontes de energia mais relevantes em Portugal (p.51):

• Quanto maior for o peso das renováveis, mais se tem de investir em fontes de energia credíveis para fazer face à intermitência. As eólicas, por exemplo, atingiram uma penetração tão grande no nosso país que foi forçoso investir em barragens e centrais a gás natural para cobrir os períodos em que há pouco vento ou vento a mais, alturas em que as eólicas estão a consumir electricidade para travar as hélices (p.57);

• Apesar da intermitência, as grandes hídricas são a fonte de energia mais competitiva; o carvão e do gás natural são as melhores opções; as eólicas, além de encarecerem todas as outras fontes, só se tornam competitivas se o petróleo quase duplicar o preço; a biomassa tem potencial para vir a ser uma fonte competitiva; a fotovoltaica é um elefante branco (p.61);

• Custo do MWh na Produção em Regime Especial, que a rede nacional é obrigada a aceitar e pagar, independentemente da disponibilidade de outras fontes (p.70):

• Entre 2000 e 2010, a Produção em Regime Especial custou cerca de 7.300 milhões de Euros a mais que aquilo que custaria ao preço de mercado (p.74);

• O sobrecusto das centrais a gás natural diminuiu cerca de 1.600 milhões de Euros desde 2008 e continua a descer (p.80);

• O sobrecusto das grandes hídricas é cada vez menor (p.85);

• O preço médio do MWh na Produção em Regime Ordinário (carvão, gás natural e grandes hídricas) foi de 53,4 Euros, enquanto que na Produção em Regime Especial foi de 97,1 Euros (p.86);

• No âmbito do Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico e da manutenção de apoios à Produção em Regime Ordinário em 2011, vamos pagar cerca de 63 milhões de Euros (20.000 Euros por MWh) ao longo das próximas décadas – a Tarifa de Uso Global do Sistema vem na factura da electricidade, disfarçada de asterisco – o que é insignificante quando comparado com os sobrecustos das renováveis (p.90);

• O transporte (ponto 2.4) e distribuição (ponto 2.5) funcionam em regime de monopólio, respectivamente da R.E.N. e da E.D.P. Distribuição, o que prejudica o funcionamento do mercado, encarece a electricidade e prejudica os consumidores e agentes económicos;

• Apesar de todas as regalias, entre os 19 mil milhões de Euros de dívida dos agentes no sector energético, 14 mil milhões são do grupo E.D.P. o que torna compreensível o corte no rating em Março deste ano (p.112);

• Em 2010, 5% da electricidade consumida foi importada de Espanha, sendo a tendência de importação decrescente (p.116);

• Na página 134 é mostrado o seguinte gráfico que relaciona o preço da electricidade no mercado ibérico, o preço do carvão no mercado internacional e o preço do Brent (petróleo do Mar do Norte) no mercado de Londres (que nos serve de referência):

• Tendo em conta este gráfico que, infelizmente, não inclui o gás natural, podemos converter as unidades de energia apresentadas na unidade universal – Joule: um MWh equivale a 3.600 megajoules, uma tonelada de carvão equivale a cerca de 24.000 megajoules e um barril de Brent (159 litros) equivale a 6.383 megajoules. A densidade energética do carvão permite obter quatro vezes mais energia que o petróleo, por aproximadamente o mesmo preço. O gás natural é transaccionado em milhões de BTU’s (1 MMbtu = 1.055 megajoules), custando na Sexta-Feira, 1 de Abril de 2011, 4.362USD. Ou seja, para obter a mesma energia que uma tonelada de carvão, precisamos de cerca de 100USD de gás natural e, para obter a mesma energia de um barril de Brent, precisamos de cerca de 25USD de gás natural – o que torna um absurdo queimar gás para produzir electricidade, quando podia ser utilizado para alimentar a frota automóvel, como tenho vindo a defender;

• O sobrecusto das renováveis (além do custo da energia, há o sobrecusto que é aquilo que os consumidores vão ter de pagar ao longo de décadas, tanto através do Orçamento de Estado como na factura da electricidade, devido aos subsídios que os produtores recebem) foi de 611 milhões de Euros em 2010, prevendo-se que seja de 833 milhões de Euros em 2011 – compare-se com a Produção em Regime Ordinário que está sujeita a subsídios: 463 milhões de Euros em 2010 e 630 milhões de Euros em 2011 (p.159);

• A incompetência da Entidade Reguladora para o Sector Energético, que estabelece as tarifas reguladas a contar com preços de energia mais baixos que os reais, juntamente com os subsídios à produção de energia, são as causas do actual défice tarifário (no gráfico abaixo podemos ver a evolução desde 2006 até à previsão para 2011) que todos teremos de pagar ao longo de dezenas de anos (p.170):

• A energia solar fotovoltaica e a tentativa (até hoje, nunca alcançada) de extrair energia das ondas vão custar, respectivamente, 3.500 e 4.000 milhões de Euros por MW instalado, de acordo com o plano para aumentar a taxa de penetração das fontes renováveis e desactivar as actuais centrais térmicas – em vez de reduzir as importações de energia, estas vão aumentar, tal como o preço. Compare-se com os 634 mil Euros/MW para reforçar as barragens já existentes e os 650 mil Euros/MW para construir novas centrais de gás natural em ciclo combinado (p.183);

• O investimento em fotovoltaicas é estupidamente caro, a electricidade sai estupidamente cara e numa quantidade estupidamente insignificante, como tal, «não é actualmente financeiramente justificável» (p.183);

• A aposta no carvão é mais barata e menos sujeita às variações do preço do Brent que o gás natural (p.195);

• A Produção em Regime Ordinário é subsidiada para defender os produtores das variações de preço e disponibilidade das matérias primas, enquanto que a Produção em Regime Especial é subsidiada em toda a cadeia de valor – desde a instalação, passando pela produção, até à obrigatoriedade de a rede nacional comprar toda a produção destes, independentemente do preço e da disponibilidade de energia mais barata (p.207);

• «As políticas energéticas prosseguidas (ex. regimes de subsidiação da produção, convergência tarifária das regiões autónomas, amortização do défice tarifário) e a repercussão dos respectivos custos nas tarifas de acesso pagas por todos os consumidores do mercado regulado e do mercado liberalizado conduziram a um peso de 35% da tarifa de uso global do sistema no total dos custos orçamentados para o sector eléctrico em 2011» (p.208);

• A não implementação do Plano Nacional Acção para as Energias Renováveis é a solução mais vantajosa em todos os aspectos, permitindo poupar mais de 10.000 milhões de Euros até 2020 (p.212);

• «Tendo em consideração que o aumento de potência em fontes de energia renovável em regime especial não é necessário para fazer face a necessidades de consumo de electricidade nacionais, apresentando um carácter substitutivo de potência já instalada, deve ser equacionado […]o adiamento do investimento, aguardando por um contexto mais favorável em termos de endividamento e dos mercados financeiros internacionais, e/ ou (ii) a revisão do objectivo nacional para a quota de energia proveniente de fontes renováveis no consumo final de energia em 2020» (p.213);

Cumprimentos!

António Gaito

4 Respostas to “Estudo do B.P.I. revela os verdadeiros custos das políticas energéticas”

  1. Diário Económico não sabe «o que precisa saber para instalar um sistema solar» « Quarta República Says:

    […] [Poucos dias depois de o B.P.I. demonstrar que não faz qualquer sentido.] […]

  2. O futuro de Portugal passa pelo metano (CH4) « Quarta República Says:

    […] Não concordo com o argumento de responsabilizar integralmente a “economia verde” pela actual situação do país, mas, uma grande quota de esbanjamento foi para este “elefante branco”… […]

  3. A falta de qualidade da energia eólica « Quarta República Says:

    […] já escrevi, mudei de opinião sobre as eólicas. Já não me oponho totalmente, mas, parcialmente. No estado actual de desenvolvimento, é uma […]

  4. alfredo mago Says:

    A factura mensal da EDP e a demissão de secretário de Estado
    Até que enfim! UFFFF !
    Agora ficámos a saber
    Até aqui foram décadas e décadas de opacidade total.
    Que mais de metade da factura não é electricidade, são impostos, todos sabíamos.
    As reclamações partiam de todos os lados, até da DECO com declarações e entrevistas do Dr. Morgado.
    Os canais de TV fizeram entrevistas ao grande soba, MEXIA. Nada.
    Houve muitas declarações e esclarecimentos – (pseudo esclarecimentos) de membros do Governo. Para nada.
    A opacidade permaneceu estas décadas. As declarações e entrevistas – aliás conduzidas com pinças de muito respeitinho – favoreciam a hipocrisia das respostas enganadoras.
    Até que neste momento vimos tudo, a saber: foi preciso uma pequena tempestade na estrutura do governo com uma demissão e pudémos ver com os nossos olhos os seguintes factos que são mesmo estarrecedores:
    1 – O Mexia impôs a saída do Secretário de estado só porque queria diminuir a factura; portanto, mandou no governo e o Passos dobrou-se.
    2 – A própria TroiKa manda, no Memorandum de entendimento, que os milhões que o Governo retira dos nossos impostos para entregar à EDP devem diminuir. E isso, não é pelos nossos lindos olhos, mas sim para equilíbrio das contas.
    3 – Mas o governo de Passos que, daquilo que assinou com a Troika só tem vindo a cumprir o que muito bem lhe apetece e a impor outras medidas que não são da Troika – caso do fim dos subsídios de Natal e de Férias em 2012 – manda a Troika às urtigas, porque, não só não diminuiu um cêntimo na facrura mensal da electricidade, como já anunciou novo aumenro.
    E eu que sempre disse que este país de corruptos só entra na linha por imposições de fora, seja da União Europeia, seja da Troika, seja donde for, engoli em seco.
    Como, globalmente na generalidade o Memorandum tem vindo a ser cumprido, só porque Passos tira donde não devia e põe onde quer – os homens da Troika têm vindo a aprovar.
    4 – Donde sai com evidência o seguinte: O grande soba da EDP mandou no governo, impondo a demissão de um Secretário de Estado, desautorizou a Troika e disse claramente ao Passos:
    agora não diminuis nada e vais anunciar novo aumento da factura.
    E eu pergunto: estamos em democracia? Sim, mas é só porque vamos ao ritual da cruzinha de 4 em 4 anos.
    Mais nada, porque fora disso, somos uma carneirada mal tratada por ditadores e tiranetes, por muitos Mexias que fazem de nós gato-sapato e por governos que lhes fazem a vontade e não a nós que votámos.
    E nós ficámos apenas com uma consolação: a de, finalmente vermos o jogo de burocracia que leva àquela maldita factura mensal só porque o governo manda para a EDP os milhões que depois nos vem buscar, porque na verdade, mais de metade da factura são impostos.
    Antes não sabíamos desses milhões, era impossível saber, foi sempre impossível
    Agora, viu-se alguma coisa do jogo que nos escraviza.
    Isto não acontece nas democracias a sério, onde não se vota só em partidos mas também em pessoas de mérito. Aqui, só se pode votar em partidos.
    Façam como eu ….. não votem.
    A abstenção está a aumentar e quando passar dos 50% eles terão de mudar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: