A R.T.P. do Poder

Artigo convidado de José Maria Pignatelli

Decididamente procura-se bipolarizar a vida política portuguesa. A todo o custo pretende-se passar a mensagem de que só o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata podem ou reúnem condições para estar no poder. São eficazes as máquinas de comunicação destes dois partidos e também as suas influências nos meios de comunicação, nos líderes de opinião, entre o poder económico e as associações empresariais e comerciais.

Extraordinária é a perspicácia do canal de televisão público que, a cobro do ‘Acordo com a Troika’, organiza um frente-a-frente entre o socialista Pedro Silva Pereira, actual ministro da Presidência, e o social-democrata Eduardo Catroga, no programa «Prós & Contras» no canal1. ARTP publicita inclusivamente: «os dois principais negociadores, cara-a-cara, no palco do maior debate da televisão». Esta é uma clarividente forma de promover mais debates entre responsáveis dos dois maiores partidos, além dos que se encontram programados.

Mesmo anunciando um directo a partir de Luanda com o centrista António Pires de Lima e uma «plateia cheia de personalidades de ângulos diversos da sociedade portuguesa, da economia, à ciência, passando pela criatividade», estranha-se este comportamento numa empresa de comunicação social que custa aos portugueses mais de 500 mil milhões de Euros anuais.

É caso para perguntar:

  • onde se sentam as outras correntes de opinião?
  • que isenção se encontra entre quem dirige a informação no canal público?
  • que interesses serve a RTP ou se está obrigada a isso mesmo para justificar as sucessivas derrapagens orçamentais?
  • em que espécie de democracia vivemos?
  • se esta bipolarização conveniente não encerra pressupostos de um determinado estilo de autocracia moderna e comum entre países subdesenvolvidos?
  • porque somos obrigados a sustentar esta lástima de empresa que continua a não saber gerar receitas para se viabilizar?
  • porque não faz o Estado um referendo para saber se os portugueses querem ou não que o País tenha de sustentar este género de empresas, institutos e fundações gastadoras de dinheiros públicos e que não prestam um serviço global à sociedade?

Ainda por cima, estaremos perante alguns dos que levantam o estandarte da democracia, criticando os actores do passado que dominavam o aparelho do Estado a todo o custo.

Cada vez mais me interrogo se o que acontece agora será assim tão diferente? Imaginávamos assistir ao desrespeito pelos tribunais – por exemplo, ao Tribunal de Contas reclamar por documentos sobre os pagamentos de compensações às explorações das nossas auto-estradas que se consideram um exagero; ou ao consumar de uma adjudicação, pelo IPO do Porto, relativa a um concurso público anulado pelo Tribunal?

Estamos perante vergonhas que convinha não se repetirem sob pena de perdermos credibilidade.

José Maria Pignatelli

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