Archive for the ‘Educação’ Category

Boas notas por encomenda…

26/05/2011

Qualquer criança que saiba ver as horas num relógio, é capaz de responder a isto!

Viva!

Que o nível de exigência nas escolas públicas é baixo, não é novidade… O que não se pode tolerar é avaliar alunos de 9º ano com perguntas ao nível do primeiro ciclo! (more…)

O imperialismo do Acordo Ortográfico

23/04/2011

Viva!

Tiro o chapéu a um amigo que me enviou disponibilizou no Facebook este comentário, redigido por um linguista: 14-EMILIANO2008b. Um documento exemplar na argumentação contra esta convenção, imposta contra a vontade dos povos lusófonos, só justificável por uma aspiração imperialista no domínio da língua – nomeadamente, do Brasil.

Por cá, continuarei a escrever com mais absoluto desprezo pelo Acordo Ortográfico.

Cumprimentos!

António Gaito

Diário Económico não sabe «o que precisa saber para instalar um sistema solar»

04/04/2011

Viva!

Este artigo do Diário Económico é uma peça de jornalismo brilhante: http://economico.sapo.pt/noticias/o-que-precisa-saber-para-instalar-um-sistema-solar_114857.html.

Não só, quem o escreveu – uma tal Ana Cunha Almeida –  não sabe a diferença entre energia fotovoltaica e solar-térmica como, ao confundir as duas, não se percebe nada! Segue o texto integral com alguns comentários:

«Investir num modelo de energia solar é uma opção que faz cada vez mais sentido.

[Poucos dias depois de o B.P.I. demonstrar que não faz qualquer sentido.] (more…)

Crítica marxista ao ecologismo

03/04/2011

Viva!

Via Velha Toupeira – Uma Biblioteca Comunista, não resisto a partilhar excertos de dois ensaios em que o movimento ecologista é analisado de uma perspectiva marxista. Na minha posição, a que alguns chamarão de “direita”, é interessante constatar que, não só o ecologismo é supra-ideológico, como também o é a sua crítica.

O movimento ecológico é hoje o inimigo oculto

«Como todos os ideólogos das classes exploradoras, os ecológicos são utópicos nas suas profecias, mas profundamente realistas nas pro­postas práticas imediatas, que partem do actual declí­nio das taxas da produtividade e do lucro: reorga­nização dos investimentos, orientados para a reno­vação das condições gerais de produção; travagem do progresso técnico aplicado aos bens de consumo e, para preparar uma baixa de salários de longa dura­ção, insistência na criação de hábitos frugais, ou seja, diminuição das condições de vida socialmente admi­tidas como médias. Estas são as duas facetas indis­solúveis das ideologias ecológicas: expansão da pro­dutividade nas condições gerais de produção e res­trições ao consumo(more…)

Os tentáculos da ditadura ecologista

02/04/2011

Viva!

Via Espectador Interessado, chega-nos esta amostra da ameaça às liberdades individuais e à economia, imposta pelo alarmismo ecologista.

Cumprimentos!

António Gaito

Portugal, «a government-free zone»

28/03/2011

Viva!

Portugal encontra-se perante um “dilema de Morton“: ou se aumenta mais os impostos e se implementa mais cortes orçamentais para impedir o recurso a 75 mil milhões de Euros do actual fundo de resgate ou, se for aceite a ajuda externa, é preciso aumentar mais os impostos e implementar mais cortes orçamentais para pagar os 75 mil milhões de Euros e respectivos juros.

O The Wall Street Journal chama os bois pelos nomes. O futuro Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) só estará operacional lá para 2013, portanto, se recorrermos à ajuda externa, será nas condições actuais – com juros elevados e com a obrigatoriedade de mais medidas de austeridade, tais como as que o parlamento chumbou. Além disso, Portugal, «a government-free zone» em risco de pedir um resgate internacional, ainda vai ter de contribuir com 18 mil milhões para o futuro MEE. A nossa miséria é temperada, neste artigo de Irwin Stelzer, pela falta de capital humano que já referi anteriormente.

Só não compreendo como Portugal é humilhado por todo o mundo – nem sempre com razão! – e, ao mesmo tempo, anda toda a gente a defender que Espanha é um caso diferente.  Será uma atitude infantil, como a das crianças que tapam os olhos com as mãos quando têm medo, valesse isso de alguma coisa? Lá por toda a gente o negar, não há-de ser por isso que, caso Portugal caia, a Espanha não vem atrás…

Cumprimentos!

António Gaito

MANIFESTO DO 12 DE MARÇO ESCRITO POR UM ZÉ-NINGUÉM

14/03/2011

Date: Wed, 9 Mar 2011 06:56:02 +0000

MANIFESTO DO 12 DE MARÇO ESCRITO POR UM ZÉ-NINGUÉM

«Até o chão curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.»

PESSANHA, Camilo – Branco e Vermelho

De que somos feitos, afinal? Daquilo que os sonhos são feitos (We are such stuff / As dreams are made on…)?

Não! Somos pessoas de carne, osso e alma, para os que acreditam que temos uma alma para além da existência carnal…

Porque raios, então, somos tidos como ruído de fundo no processo de decisão politica? A nossa ignorância da realpolitk e outros assuntos que, todos gostaríamos de não saber, é demasiado para a nossa consciência? Não! É, simplesmente, demais para o nosso bem-estar…

E quando aquilo que não queremos saber dita o nosso conhecimento do quotidiano, o nosso ordenado, o preço que pagamos pelos combustíveis, pela comida, pela electricidade, pela água… Quando aquilo que não queremos saber diz respeito a tudo à nossa volta e, quais Penélopes, tricotamos o nosso dia-a-dia, enquanto aceitamos a clarividência de gente que não consegue ver para além do próprio umbigo? Manifestamo-nos?

Tenho 25 anos e não gosto assim tanto dos Deolinda! No entanto, que parvo que sou… Tenho 25 anos e ainda acredito que as coisas podem mudar! Nada pode mudar enquanto a minha geração não tomar o poder. Não falo da geração nascida em finais dos anos de 1980… Os que nasceram por essa altura e fizeram carreira nas juventudes partidárias não são melhores que os Varas, com a diferença de nem terem médico de família (como eu) para passarem à frente nas filas dos Centros de Saúde. Falo daqueles que não foram traumatizados por um 25 de Abril e conseguem manter a razão!

Vou para a Avenida da República no dia 12 de Março às 15 horas porque quero muita coisa! Não me transtorna o desgoverno Sócrates, mais do que me transtornaria qualquer outro republicano-maçon-capitalista que desempenhasse o papel de chanceler do reino, houvesse algum monarca que tomasse conta de nós! Revolta-me, sim, o fartar-vilanagem a que estamos entregues! Não somos mais uma nação soberana, tais as cedências aos Senhores da União Europeia e aos interesses privados… Nem o Estado tem, como deveria ter, a capacidade de manutenção da ordem pública, a não ser da máquina fiscal – a única coisa que funciona bem neste pais!

O Estado é de todos, portanto, não quero mais amizades com ditadores como o Kadhafi, o Eduardo dos Santos ou o Chávez! As empresas portuguesas que o queiram fazer, força! Afinal de contas, é nisso que consiste o princípio da livre-iniciativa no Estado de Direito Democrático: se não for ilegal, cada um cria riqueza como puder!

O Estado tem o dever de apoiar o Colectivo, para isso cobra impostos. Portanto, se EU pago impostos, tal como TODOS pagamos e, estamos a falar do ÚNICO ORGANISMO PÚBLICO QUE FUNCIONA NESTE PAÍS: será que o grande capital QUE CRIA RIQUEZA não deve pagar na justa proporção daquilo que a nação paga no seu todo?

E as Forças Armadas, garantia da soberania nacional, não merecem o respeito da sociedade civil? Se calhar, enquanto houver mais preocupação em formar carreiras do que em delinear um plano de acção para termos uma força militar moderna e capaz de intervir em qualquer parte do mundo em defesa dos interesses nacionais ou dos princípios morais que guiam as relações entre os Estados, os nossos heróis serão apenas os desportistas que, embora representem a nossa bandeira, não entregam a própria vida para defender o Colectivo.

Qualquer crise económica é acompanhada de uma crise social, do aumento da insegurança, da criminalidade. E não é só o pobrezinho que rouba um pão ou uma peça de fruta da mercearia… Esse, se apanhado em flagrante delito, de acordo com o Código de Processo Penal que a Nomenklatura alterou, vai de cana! NUNCA EM PORTUGAL HOUVE TANTA CRIMINALIDADE VIOLENTA NEM CRIME ORGANIZADO como hoje temos e, para lidar com isso, diminui-se o orçamento das forças de segurança e o número de efectivos das polícias – menos aqueles cinco blindados muito bons para lidar com distúrbios públicos que, segundo disseram, vieram para uma cimeira posterior à entrega…

E que dizer da Justiça? Eu, que vos escrevo, fui sentenciado a setenta dias de multa em 2010 (4€ por dia) por um tribunal, por ter sido apanhado a conduzir com álcool em 2007. Como não tenho emprego, tenho de protelar o pagamento com requerimentos… Mas há quem usurpe o cargo que ocupa e coloque ao seu dispor o Procurador Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (quarta figura na hierarquia do Estado de Direito Democrático) para fugir às responsabilidades dos crimes que cometeu. E, como todos já tolerámos vários enganos com a mesma origem, fechamos os olhos em nome da estabilidade!

A nossa economia, tendo em conta a inexistência de um sector produtivo, é uma coisa qualquer que não uma economia. Uma reforma agrária seguida de uma Política Agrícola Comum destruíram o nosso sector produtivo! Os nossos minérios estão ao Deus dará, a lavoura é coisa para quem tem amor à terra e não amor próprio (quando sobrevoo Espanha ou França, vejo as terras cultivadas, vá-se lá saber porquê), a pecuária está entregue a mercados em que nem sequer participamos, as pescas são uma miragem (os navios foram abatidos para outros países virem delapidar os nossos recursos, muitas vezes, ilegalmente) e a produção primária de energia depende das melancias (verdes por fora, vermelhos por dentro; gente que com a queda do comunismo tomou de assalto o ambientalismo e mina o nosso modo de vida com as suas ideologias anti-capitalistas). A indústria parece que não se mentaliza da verdade inconveniente: os salários baixos, hoje, são a arma da Roménia e da Bulgária! Nós precisamos de salários decentes e produtividade (mesmo que isso implique trabalhar umas 12 horas por dia, pagas obviamente!) no sector da transformação. E se não há dinheiro para comprar serviços, como é que pode haver um sector dos serviços? O crédito fácil acabou… Está na altura de pagar o que devemos e não ganhamos para isso!

O cavaquismo deu-nos auto-estradas com fartura! E se uns pagam, porque raios é que outros não querem pagar? É por causa da interioridade? Sabem lá esse caramelos o que é estar longe do litoral?! 400Km da fronteira para o mar não é nada! É, quando muito, uma vantagem, tendo em conta que algumas das mais prósperas cidades europeias estão mais longe que isso e valem-se da proximidade com os portos marítimos para o comércio de mercadorias. Roma ou Londres estão tão longe do mar como Santarém! E se temos os Alfa Pendular há tantos anos e não remodelámos as linhas para que circulem como era esperado, para que raios é o T.G.V.? Se é para fazer investimento público em ferrovias, então, mudem a bitola ibérica para bitola europeia – só assim os passageiros que embarcam em Lisboa e as mercadorias que são descarregadas em Sines podem seguir para o resto da Europa sem trocar de comboio nos Pirinéus!

É correcto os P.I.N. serem mais importantes que a R.E,N, mas, as eólicas e o P.N.B. podem continuar a sugar os portugueses até à medula… Mesmo que paguemos quase metade da nossa factura da electricidade e grande parte dos nossos impostos para financiar a P.R.E., em alguns casos a QUINZE VEZES O VALOR DE MERCADO, nenhum líder político veio a público dar a opinião sobre isto! Ou seja, a conservação do ambiente, por causa da ditadura pseudo-ecologista baseada em mentiras, foi deixada para segundo plano, em nome de uma política energética que não oferece qualquer segurança económica ou ambiental!

NÃO HÁ POLÍTICAS DE APOIO À FAMÍLIA! Os portugueses não têm filhos porque não podem! Se em tempos de má memória um ordenado médio dava para sustentar uma família de quatro pessoas, hoje mal chega para uma! É nisto que consistem as conquistas de Abril? Quando, dado o nosso desequilíbrio demográfico, temos de contar com os imigrantes para sustentar a nossa Segurança Social (o tão querido Estado Social QUE A ESQUERDA DEFENDE E – EU TAMBÉM, mas não desta forma)? Que raio de Estado de Direito Democrático é este em que os mesmos Socialistas que redigiram a Constituição da República, vêm agora INCONSTITUCIONALMENTE reduzir salários aos trabalhadores?

E se em tantos países, em vez de pagar mais impostos, os trabalhadores descontam para um seguro de saúde privado – sistemas que, pelo menos, na Europa funcionam – sem que com isso percam o direito constitucional do acesso à saúde, porque é que tendo nós um Serviço Nacional de Saúde tão justo, centenas de milhar de pessoas (como eu) não têm um médico de família? E porque é que os hospitais, em vez de serem públicos ou geridos por privados, além das pessoas competentes que zelam pelos cuidados de saúde da população, têm de desviar recursos para pagar a Conselhos de Administração NOMEADOS pelos partidos que estão no Governo? Esses salários não seriam, por exemplo, melhor empregues em material de diagnóstico e horas de serviço aos médicos, para eles não terem de fazer part-times nos privados?

Eu aprendi a ler, escrever e a fazer contas… Infelizmente, não aprendi a parte das contas como deve ser! Mas, sei realizar operações básicas, tal como sei ler e escrever sem passar vergonhas. Mas tive colegas no Ensino Superior que não sabiam ler nem escrever em português! E chegaram lá. Como? Se estivesse numa qualquer engenharia (daquelas em que não se passa com exames ao Domingo) ficaria chocado se algum colega meu não soubesse resolver uma operação matemática elementar. Como andei a passear pelas Humanidades (Direito e Arqueologia), choca-me que haja gente a concluir licenciaturas sem saber ler nem escrever. E não os culpo! Afinal de contas, também me passeei por um ensino Básico e Secundário sem a menor exigência – que hoje é ainda menor para não afectar as estatísticas da O.C.D.E. – e vi as recompensas dadas ao mérito… DAÍ NÃO ME TER ESFORÇADO MAIS! Mas quando ouvimos os professores a protestar por serem avaliados, devemos pensar que o mais importante é como eles avaliam os alunos. Se o sistema os obriga a dar boas notas, é claro que têm de ser maus professores e, como tal, não querem ser avaliados! OS MELHORES PROFESSORES QUE EU TIVE, DESDE O BÁSICO AO SUPERIOR, NÃO TINHAM PROBLEMAS EM DAR AS NOTAS JUSTAS! E muitos deram-me más notas com toda a justiça… Sem a pressão de serem eles próprios avaliados.

Mas quando se chega ao Ensino Superior, não é o grau de exigência que é maior… É a capacidade de lidar com o status que conta! Porque se antes disso tivemos professores com medo daquilo que lhe calha em avaliação, nas Universidades os Professores são Senhores do destino dos alunos. E muitas vezes, tanto as aulas como as avaliações são deixadas para os mestrandos, doutorandos e pós-docs, uma forma digna de TRABALHO PRECÁRIO. É claro que só quem pode – ou quem tem artimanhas com as declarações de rendimentos – é que aguenta cinco anos de Universidade… Para ir trabalhar num call center ou numa empresa de vigilância.

Mas a cultura… Ai a cultura, essa coisa que, para os gauchistas deve ser acessível a todos. Essa forma esquerdista de educar as massas… Revolta-me como se gasta tanto dinheiro do Ministério da Cultura em subsídios a artistas e museus vazios e como infelizmente o património histórico, arquitectónico e arqueológico está na mesma dependência, aquilo que realmente é de todos está entregue à bicharada. Quando não aparece algum construtor civil – quantas vezes a obra é pública! – para cilindrar o património que é de todos – e se me é permitido, devo dizer que participei na escavação de um dos povoados fortificados do Calcolítico melhor preservados da Península Ibérica, que acabou cilindrado porque o presidente da Câmara de Redondo (dissidente do P.C.P., e nem por isso melhor pessoa) teimou em cumprir a promessa eleitoral de fazer uma estrada DESNECESSÁRIA por cima daquele povoado – fica simplesmente ao abandono. Mas, como é politicamente correcto, financia-se companhias de bailado cujos directores fazem o que querem do dinheiro, orquestras que tocam para plateias vazias, teatros que não conseguem chamar público (o estupor do La Féria consegue encher o teatro dele sem um tostão dos contribuintes, aquele capitalista!), filmes que ninguém vê e pintores e escultores que ninguém conhece. Vá-se lá saber o motivo pelo qual os filmes, peças de teatro, livros e exposições, noutros sítios não só partem da iniciativa privada, como rendem dinheiro e estimulam a economia. Deve ser obra do demo capitalista que leva os artistas a oferecer às pessoas a sua arte e as pessoas ( a massa ignorante que a esquerda quer educar) a procurar aquilo que lhes interessa…

Mas quem sou eu, António Lopes Pereira Gaito, nascido aos vinte e sete dias do mês de Janeiro no ano de mil novecentos e oitenta e seis da graça do Senhor, para questionar os caminho que esta elite (E O POVO QUE VOTA NESTES ESTAFERMOS) nos conduz? Eu que sou convictamente ateu, defensor da ciência exacta, do debate de ideias livre, da democracia, das liberdades individuais, da justiça dos Homens, de direita (assim me diz quem gosta de classificar as coisas para não se sentir perdido ou de catalogar tudo para saber aonde pertence) quem sou eu para colocar em causa o mundo em que vivo?

As veias onde o sangue me corre não contêm mais a pressão, tal é a revolta que trago. Eu, como milhares, quero outra coisa… Quero justiça! Se calhar, nem todos querem a mesma forma de a cumprir. Muitos estarão, concerteza, seduzidos pelas palavras de um certo alemão, ou dos seus seguidores (duvido que a maior parte dos socialistas ou comunistas alguma vez tenha lido Marx, senão, seriam outra coisa qualquer, menos aquilo que dizem ser), mas o derradeiro objectivo é universal: a tal sociedade livre justa e fraterna que foi postulada na Lei Fundamental por um indivíduo que, antes disso, vendeu (tal como outros anti-fascistas) os que a defendiam ao regime vigente.

Nem preciso da Justiça Divina – essa fica para os Homens de Fé, quando a hora chegar! Só quero a justiça terrena: a oportunidade de um trabalho digno, de um salário justo, de um meio socioeconómico em que possa constituir família e de um Estado que zele pelos interesses do Colectivo, não dos amigos do Bloco Central. É pedir demais? As grandes conquistas da Humanidade em termos de Direitos, Liberdade e Garantias consistem nisto! A Magna Carta, a revolução Francesa, a revolução Americana, a nossa Carta Constitucional de 1826… Como é que a Terceira República pode ser mais atrasada neste aspecto? Será precisa uma Quarta República? Então eu, que até tenho simpatias monárquicas, DEFENDEREI UMA QUARTA REPÚBLICA!

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.» É de Garrett, em 1846 (Viagens Na Minha Terra), e não minha a interrogação. Eu, na insensatez dos meus vinte e cinco anos, interrogo os mesmos agentes que Garrett: quantos mais portugueses é forçoso condenar à miséria, à exploração salarial, ao endividamento, à desmoralização, ao terceiro-mundismo, à absoluta incapacidade de usufruir da dignidade que devia estar presente em todos os seres humanos, para satisfazer o voraz apetite da elite que manda sem ter sido eleita? Quanto mais pobres, desempregados, esfomeados, miseráveis, serão necessários até que alguém que possa fazer a diferença dê um murro na mesa e diga “basta!”?

EU SEI O QUE QUERO – E NÃO É ISTO! Eu quero mais e quero melhor…E tenho esse direito! E não quero mais pseudo-socialismo (é que nem ao produto original temos direito!) nem sociais-democratas (outra contrafacção da versão capitalista do marxismo). Quero outra coisa! Quero pessoas reais. Pessoas que dêem o nome e a cara por aquilo que defendem, mesmo que eu não goste! Pessoas que eu possa apoiar ou responsabilizar. Pessoas que mereçam o meu voto. Pessoas e não siglas! Quero uma política com rosto humano e não com interesses partidários! Quero as pessoas dos partidos e as que não são dos partidos… Não quero é os partidos e o que os rodeia. Quero o madrugar irreal do Quinto Império, ou na falta disso, a segunda melhor coisa: um caminho novo, uma respublica nova, um novo Portugal!

Por isto tudo e, sobretudo, por mais que as palavras não podem traduzir, às três da tarde de Sábado, dia doze do mês de Março, vou estar na Avenida da República, não só para oferecer o corpo à manifestação ou protesto… Não só para reivindicar aquilo que é meu, por direito inato… Mas para ser mais um no meio da multidão! Uma voz, uma mente e um corpo no meio de tantos outros. Porque eu sou mais que eu! Eu sou parte do todo que completo e faz de mim quem sou. Eu sou português! E sou humano! Não posso tolerar mais atentados contra a condição que me define. Porque não sou só eu o prejudicado – é o Colectivo que está em xeque! Quem cala, consente… E SÓ CONSENTE QUE GANHA COM A MISÉRIA DE TODOS!

Odivelas, 8 de Março de 2010

Mais um Zé-Ninguém

O texto acima foi escrito com o maior desprezo pelo Acordo Ortográfico.

António Lopes Pereira Gaito

A discussão de ideias na ciência de hoje

14/03/2011

Date: Wed, 26 Jan 2011 23:43:56 +0000

Viva!

TED Talks: Elaine Morgan says we evolved from aquatic apes:
http://www.ted.com/talks/lang/eng/elaine_morgan_says_we_evolved_from_aquatic_apes.html

Partilho convosco este vídeo na sequência do encontro que começa esta Sexta-Feira na Gulbenkian sobre um tema que me é muito caro e em relação ao qual, espero, as gerações futuras nos desculpem pela forma como as posições políticas e os interesses económicos ditaram a traição dos princípios sobre os quais a ciência foi fundada.

Esta palestra, também sobre um tema que me envolve, apesar de veicular uma teoria que não me parece bem fundamentada por enquanto, arrebatou-me desde que a vi pela primeira vez – está tudo lá: a ciência por encomenda, por conferência de imprensa ou por votação de braço no ar; a ciência estabelecida, onde o debate está terminado; a ciência por consenso de uma maioria ou de uma alegada maioria, onde os dissidentes (os cépticos, como qualquer cientista que se preze deve ser) são marginalizados e insultados; a ciência feita a partir das cátedras de alguns; os fundos de investigação rejeitados aos que não professam os dogmas dominantes; a ciência anti-Galileu, anti-Newton, anti-Einstein, anti-qualquer um que ouse abalar o status; a ciência que não admite que uma só pessoa possa estar certa quando todos estão errados porque, nas ciências de hoje, as maiorias é que detêm a razão – razão essa formulada por paineis internacionais ou, quando os cientistas se tornam incómodos, intergovernamentais.

Quantas outras áreas científicas não haverá com o mesmo problema? Estas duas, porém, acompanham-me desde o primeiro ano de arqueologia. Foi nessa altura que percebi que quando na ausência de registos escritos, como acontece nas sociedades pré e proto-históricas, o caminho está aberto para as masturbações intelectuais gauchistas sobre sociedades pacifistas, igualitárias e vegetarianas. Que por mais delirantes que sejam as teorias vigentes, têm de ser apresentadas como verdade verificada quando submetemos algo para ser avaliado. E foi nessa mesma altura que, tomando contacto com a paleoclimatologia, atrevi-me a dizer “desconfio” em relação àquilo que é dado a conhecer às massas sobre o clima do planeta. Nos últimos quatro anos tem sido um hobby tão gratificante em termos do conhecimento que ganhei, como doloroso pelas desavenças, insultos pessoais e inimizades por pensar pela minha cabeça.

Não partilho da opinião da senhora do vídeo, mas, tenho de reconhecer que é interessante e digna de debate. Mesmo que ela defendesse um disparate sem qualquer ponta por onde se pudesse pegar, seria uma opinião tão digna de ser debatida e submetida ao processo de falsificação e replicação como qualquer outra. Quantas vezes não bastou um só indivíduo com uma ideia absurda e contrária à opinião geral para revolucionar a ciência e a história da humanidade?

Com os melhores cumprimentos!
António Gaito

O texto acima foi escrito com o maior desprezo pelo Acordo Ortográfico.

António Lopes Pereira Gaito

Archport PhD …

14/03/2011

Date: Wed, 12 Jan 2011 03:12:32 +0000

Viva!

Vários motivos levaram-me a, este ano, suspender a licenciatura em Arqueologia, área que continua a ter para mim o mesmo interesse, mas, causou-me uma enorme desmotivação. O funcionamento do sistema académico, sobretudo pós-Bolonha e, mais vergonhosamente, nas ciências (ou que se fazem passar por tal) sociais e humanas, como referido no artigo que o Mataloto nos enviou, foi um dos principais.

Gostaria, portanto, de tecer algumas considerações sobre o que se discute aqui, começando pela comparação que já alguém nesta lista de discussão fez com o caso de Direito e do acesso à Ordem dos Advogados: como ex-aluno de Direito tenho, necessariamente, de rejeitar este tipo de comparações. Uma Ordem profissional não serve para fiscalizar nem avaliar a qualidade do ensino. Essa tarefa é das Universidades e da Tutela. Uma Ordem, seja ela qual for, serve para garantir que os profissionais que certifica são competentes para desempenhar as tarefas que lhes são pretendidas. Talvez por isso não convenha a muito boa gente a hipotética Ordem dos Arqueólogos. Quantos “profissionais” no activo, quantos recém-licenciados ou mestrados ou doutorados, quantas “bestas sagradas” teriam o acesso rejeitado ou dificultado? Justamente? Sem dúvida!

E as Universidades estão cheias de teses da treta! É um facto! E não é só em Arqueologia, onde se passa dois ou quatro anos a “estudar” líticos ou fragmentos de cerâmica – entenda-se que “estudar”, neste caso, significa apenas medir, descrever, desenhar e fotografar artefactos que, muitas vezes, já foram medidos, descritos, desenhados e fotografados por meia-dúzia de pessoas antes sem que se acrescente nada de novo ao conhecimento sobre o sítio de onde provêm ou as sociedades que os produziram – e chama-se a isso uma tese… É claro que, em muitos casos, uma tese a sério pode ser um risco para a carreira do aspirante a arqueólogo, não vá ele esbarrar em conclusões que ponham em causa o trabalho e as teses sobre as quais os seus professores e as “bestas sagradas” contruiram as suas carreiras e sustentam as suas cátedras, risco esse que se aprende desde o início do curso quando, por exemplo, postular nos exames as interpretações histórico-arqueológicas, baseadas mais nas convicções políticas do professor que na realidade dos factos conhecidos, é condição sine qua non para fazer a cadeira.

A maior parte dos mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos serve unicamente para um propósito: o tal esquema em pirâmide que o artigo do The Economist fala! A minha Faculdade, que em dois anos aumentou as propinas de 700€ para 1000€ sem que isso se reflectisse numa melhoria da qualidade ou das condições de ensino, porventura não será das piores! Mas, também não escapa ao funcionamento em ciclo-fechado e autismo em relação às necessidades do mundo real. Formar arqueólogos para essa coisa horrível e degenerada que é o sector privado? E depois os grandes culpados de tudo e mais alguma coisa são os organismos públicos que não têm respeito pelo património! Mas, quando se trata de produção científica da que é importante, pouco se faz – nem escavações há para os alunos todos! Como é que se explica isto quando a maior parte dos professores, são bons professores? Pela falta de verbas? Mas há mestrandos e doutorandos e bolsas de investigação… É o tal esquema em pirâmide a funcionar: o trabalho faz-se de baixo para cima, a academia consome-se a ela própria. Porque melhor que um bom trabalho, só uma grande quantidade de trabalhos publicados – os bons curricula, hoje, são os maiores. E assim se pode acabar uma licenciatura em Arqueologia (e até um doutoramento) sem alguma vez se ter pegado num colherim!

A carreira académica hoje, a não ser para aqueles que são realmente muito bons no que fazem ou têm quem os apadrinhe com concursos feitos à medida, é um mito! Mas, para conveniência das Universidades, continua-se a incentivar a perseguição da quimera em vez de reformular os métodos e adequar o ensino às exigências do mercado. E, salvo os bons exemplos que ainda há, as Licenciaturas de três anos apenas vieram piorar o que já estava mau. Um Mestrado, por exemplo, que pode render entre 3000€ e 20000€ às Universidades públicas, só torna alguém mais competente numa área específica (normalmente, a mesma dos professores que beneficiam com o trabalho dos mestrandos), quando o mundo real exige competências transversais. Em Arqueologia, essas competências podem ser adquiridas, por exemplo, numa exploração de carácter diferente: a estagiar nalguma empresa que, em vez de pagar a arqueólogos, apresenta orçamentos mais baixos à custa de trabalho voluntário.

Neste panorama, será que se está realmente a formar capital humano? Ou a catadupa de Mestrados que Bolonha veio trazer não passa areia para atirar aos olhos de alguém, como pôr os alunos do 9º ano a fazer provas de aferição com aritmética da 4ª classe, só para a OCDE bater palminhas ao nosso desgoverno e os nativos ficarem de peito inchado?

Cumprimentos!
António Gaito

Date: Mon, 10 Jan 2011 23:07:39 +0000
From: xxx
To: yyy
Subject: Re: [Archport] PhD …

Bem, que posso mais acrescentar…

A questão essencial reside, talvez, na inércia de quem, sobre a quadratura académica, recebe mais 200 € por mês, no ordenado, para realizar investigação. Esta investigação teria como objectivo actualizar os programas e dados das formações (aulas), ano após ano, e, sem dúvida, trazer e despertar o interesse na formação daqueles que pagam e bem por um serviço “profissional” e de “qualidade”. O que se verifica, na esmagadora maioria dos casos (mais de 90%… sem querer ser exagerado), é que, o subsídio académico para a investigação é já um dado adquirido como ordenado base. Que piada… E depois dizem alguns…. claro… mas 100, 150 ou 200 € por mês não são suficientes para atingir essa “investigação” e proporcionar mais qualidade…. pois claro, é evidente que entre 1500 a 2500 € por ano não chegam para fazer investigação…. hum…. claro que não. Assim sendo, “vou ficar com esse acréscimo de ordenado, vou pedir apoios aos centros, à FCT, a sei la quem e vou tentar fazer algo para o CV… e para o público ver… Contudo, acho que, só daqui a 30 anos é que vou ter material suficiente para acrescentar novidades de fundo nas minhas aulas académicas….”. Dá que pensar… e isto é só a pontinha o Icebergue….
Relativamente à FCT, PHD, Pos-DOC em português e outras politiquices…. Bem, basta pensar, nomeadamente, no interesse e na importância de realizar um estudo financiado (FCT / outros), durante 4 a 5 anos sobre a cerâmica comum romana de um tal sítio, imaginando que esse financiamento (6000 a 7000 €) justifica andar a medir, pesar e reflectir sobre formas e utilidades de uma qualquer artefacto que, na pior das hipótese, terá já 120 a 150 anos de investigação científica sem conclusões maiores do que: “esta panela de cerâmica comum romana pesa 450 gramas e servia para conter líquidos e era produzida nos barreiros localizados entre as Baleares, a Catalunha, Aragão, Galiza, “Scalabis”, “Clunia”, Algarve e Valongo…. é que os minerais que constam nestes cacos e as suas concentrações mineralógicas podemos encontrar em quase todos os barreiros da P.I. menos num…. que agora está debaixo de água…. Mas eu acho que o projecto merece ter a pontuação máxima…..
Ou talvez seja importante andar a receber una BECA para estudar a dinâmica espacial durante a Pré-história antiga com base nos ossos de javali selvagem (Sus Scrofa) que habitava nos mesmos locais onde se encontravam os habitats do Gravetense (época das primeiras manifestações “artísticas”)…. ou melhor ainda…. hum… eu acredito que o meu projecto está muito bem financiado….. Eu merecia…. o meu projecto sobre a importância do arame farpado para a protecção do património arqueológico é algo extremamente útil…..
PHD, POS-DOC, BOLONHA, FORMAÇÃO ACADÉMICA, ENSINO DE QUALIDADE, FCT…..Hummmmmm. Pão e Circo, Pão e Circo…

Tenham mas é Juizo.

Em 10 de janeiro de 2011 16:44, rui mataloto zzz escreveu:

Creio que a lucidez do artigo é absolutamente avassaladora sobre o estado da situação um pouco por todo o dito “Mundo Ocidental”; todavia, agrava-se num país, como o nosso, onde a investigação não é carreira, e a saída universitária escassa e muito “tortuosa” …
Para reflectir. “PhD” ou não “PhD”? Pos-doc? Enfim, para aqueles que conseguem bolsas, sempre é um bom subsídio de desemprego para jovens mestres e Doutores …
Rui Mataloto

http://www.economist.com/realarticleid.cfm?redirect_id=17723223

João, Alterações Climáticas e a sua opinião sobre o lugar da Verdade

14/03/2011

Date: Thu, 18 Nov 2010 04:58:04 +0000

Viva!

SE ESTA MISSIVA QUE VOS ENVIO PUDER CHEGAR À RAZÃO DE ALGUÉM, É UMA CONQUISTA DIGNA DE UM GIORDANO BRUNO OU GALILEU. UM HOMEM CONTRA O STATUS! MAS, TAMBÉM, UMA HISTÓRIA SOBRE COMO NÃO TER UM DISCUSSÃO SÉRIA ÀS 02H NO “REAL REPÚBLICA“.

Em versão resumida, João, um jovem universitário e, por sinal, com uma cultura e posições ideológicas notáveis, aceitou a premissa que sustenta que o pânico das alterações climáticas é, sobretudo, um motivo que nos deve levar a pensar a sustentabilidade da economia e a nossa atitude face à poluição e contaminação dos recursos naturais.

Desisti do debate porque estava mais interessado em beber que na discussão, no entanto, não posso deixar passar que este jovem admitiu a FALTA DE PLAUSIBILIDADE DESTA POSIÇÃO QUANDO CONFRONTADA COM DADOS E PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS. E o que me preocupa, neste momento, não é a crença das pessoas numa teoria desacreditada: preocupa-me que o cidadão comum veja na subversão dos princípios científicos um meio de atingir fins que, parece-me consensual, são desejados por todos! Mas, ninguém parece perceber que o preço a pagar é o descrédito de toda a comunidade científica… Pedro e o Lobo não servem de lição a ninguém?

No País das Maravilhas Socialistas, será que a verdade deixou de ocupar um lugar relevante? Será que o relativismo está a ocupar espaço privilegiado na sociedade civil, ao ponto de aceitarmos os nossos direitos, liberdades e garantias diminuidos em troca de uns subsídios à microgeração e carros eléctricos com impostos reduzidos?

Cumprimentos e esperanças que alguém queira debater esta situação!
António Gaito

O texto acima foi escrito com o maior desprezo pelo Acordo Ortográfico.

António Lopes Pereira Gaito

Archport Um País pequenino…

14/03/2011

Date: Sat, 24 Jul 2010 22:57:46 +0100

Viva!
Reenvio como recebi. É por coisas destas que estou farto da Faculdade de Letras…
Cumprimentos!
António Gaito

Date: Sat, 24 Jul 2010 14:15:22 +0100
From: xxx
To: archport@ci.uc.pt
Subject: [Archport] Um País pequenino…

INÊS PEDROSA

Inês Pedrosa « Opinião « Página Inicial |

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Um caso exemplar

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)

0:00 Quarta feira, 14 de Julho de 2010

O arqueólogo premiado que Portugal não quis

A história de João Zilhão, um dos dois mais citados, prestigiados e premiados arqueólogos do mundo, explica porque tem Portugal tanta dificuldade em sair da cepa torta. A extraordinária entrevista de Virgílio Azevedo, publicada na “Única” do sábado passado, devia inaugurar um dossiê de governação intitulado: “Causas do Atraso Crónico de Portugal” e ser objeto de reflexão efetiva. Um dossiê destes seria muito mais barato do que a infinidade de estudos que se encomendam para nos consolar ou acalmar – desde o do valor da Língua Portuguesa, que até agora não serviu para mudar nada na política da Língua, às investigações repetidas (e infrutíferas) sobre o funcionamento dos equipamentos culturais, ao recente inquérito sobre o nível de satisfação dos portugueses, que concluiu que somos mais felizes do que julgávamos.

João Zilhão liderou, em 1998, a descoberta do menino do Lapedo, um esqueleto com mais de 25 mil anos que demonstrou ter existido miscigenação entre os chamados Neandertais e os homens modernos. Em janeiro passado, publicou os resultados das suas mais recentes investigações, que provam a existência de adornos e pinturas corporais nos Neandertais da Península Ibérica, o que significa que “eram, do ponto de vista cognitivo, idênticos aos homens modernos”. O trabalho de João Zilhão redefine toda a historiografia, porque revela a existência de “uma única espécie humana” desde há dois milhões de anos. Isto é: “A dicotomia Neandertais/ homens modernos é falsa e simplista.” Zilhão esteve também à frente do processo de descoberta das gravuras de Foz Coa. Confessa que o seu objetivo, aos 53 anos, com cerca de 15 anos úteis pela frente “se os joelhos funcionarem”, é o de esclarecer mais profundamente o modo de vida dos últimos Neandertais e o de “formar equipas novas que possam continuar o meu trabalho”. Onde vai João Zilhão formar essas equipas? Não na universidade portuguesa, porque essa rejeitou-o: em 2003, ao mesmo tempo que ganhava um Prémio da Fundação Humboldt para trabalhar um ano na Alemanha numa instituição de investigação à sua escolha, o Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa proibiu-o de fazer provas de agregação: “Os meus colegas deste departamento entenderam que eu não tinha nível científico suficiente para ser promovido”, explica o arqueólogo, “o que é ilegal, porque o nível científico está regulamentado por lei, é objetivo”. Recorreu e o tribunal deu-lhe razão – mas só em 2009. “Já antes, também de forma ilegal, tinha sido preterido em 2002 na promoção a professor associado e o tribunal deu-me igualmente razão.” Como podem os tribunais levar tantos anos a decidir sobre estes casos de injustiça laboral? Zilhão diz que há centenas de exemplos como o seu – não duvido, porque eu própria conheço de perto uma meia dúzia deles. A diferença é que a maior parte deles não chega a tribunal, porque os prejudicados ou fecham a porta do país e não estão para se maçar mais com as invejazinhas imobilizadoras cá do sítio – ou não veem alternativas de trabalho, calam-se e aguentam. A europeização das universidades está já a resolver estes problemas; os jovens mais qualificados desistem de Portugal, país onde o poder da mediocridade instituída é real e passa de gerações em gerações – do mesmo modo que o poder económico se transmite familiarmente, sem atender a competências. Lembro-me sempre do administrador de uma empresa que perguntava, varado com o brilho e a eficiência de uma jovem funcionária: “Quem é esta rapariga, que não é filha de ninguém?” Essa filha de ninguém só conseguiu singrar quando, a duras penas, constituiu a sua própria empresa. E, embora ninguém hoje lhe regateie talento e competência, continua a atravessar dificuldades – porque as castas distribuem encomendas e dinheiros entre si, sem cuidar de ninharias como qualidade ou resultados.

Depois do período no trabalho na Alemanha, o arqueólogo brilhante que Portugal não quis foi receber um prémio a Londres e propuseram-lhe que concorresse a um lugar na Universidade de Bristol, onde está, desde 2005, como professor catedrático, a formar as tais novas gerações de investigadores. A história de João Zilhão é escandalosamente exemplar. A parábola de um país que despreza os seus melhores.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Julho de 2010

De onde vem o “aumento da acidez dos oceanos” em 150% até 2100?

14/03/2011

Date: Sun, 18 Jul 2010 23:42:34 +0100

Nota prévia: devido a uma recente mensagem em tom insultuoso, proveniente de um ex-membro desta mailing list que viu o seu sistema de crenças abalado e, incapaz de corresponder às espectativas de livre discussão e troca de informação subjacentes a estes emails, caiu no uso de diversas falácias, entre as quais o ataque ad hominem à minha pessoa, venho pedir-vos: quem desejar ver o seu contacto fora desta lista, informe-me. Todos os contactos, com maior ou menor afinidade, são de alguma forma meus conhecidos e, neste caso particular, foi particularmente duro, visto tratar-se de alguém com quem já mantive uma sincera amizade até, há uns sete anos atrás, os nossos caminhos ideológicos divergirem. Não pretendo passar doutrina, mas, sim, estimular o debate e facultar informação que, muitas vezes, não chega ao cidadão comum. E em termos de eficácia, considero uma mailing list mais adequada a este propósito que, por exemplo, um blog. Portanto, embora use esta lista para passar diversos tipos de conteúdos, repito, quem não quiser constar aqui, só precisa de me manifestar essa vontade…
___________________________________________________________________________________________________________________________________

Viva!
Na pesquisa de material para a eventual redacção de uma Carta Aberta dirigida ao Ministério da Educação, encontrei o artigo científico que serve de base ao trabalho da senhora Holland na National Geographic (N.G.) de Novembro de 2007. Trata-se de Orr et al., 2005, publicado na Nature e que envio em anexo. Ao contrário da N.G., os conteúdos da Nature estão sujeitos à revisão pelos pares (peer-review), logo, não será expectável que qualquer coisa passe ao escrutínio que se pretende rigoroso. Mas, segundo me parece, estão aqui presentes algumas coisas que não batem certo:

– Este trabalho trata, apenas, do PH à superfície nas latitudes mais elevadas (Norte e Sul). A N.G. passa da parte para o todo e usa estes dados como se respeitassem à globalidade dos oceanos;

– O worst case scenario apresentado sugere que algumas águas superficiais polares e subpolares poderão ficar insaturadas de iões de carbonato durante os próximos 50 anos, caso se verifique uma duplicação do CO2 atmosférico – três condicionais;

– O PH destas águas na era pré-industrial foi estimado em 8,179 com base nas variações de CO2 atmosférico, reconstruidas a partir de proxyes. Ou seja, ninguém sabe os valores exactos porque há demasiadas variáveis neste processo, mas, se limitarmos as variáveis para encaixarem num modelo incompleto, ficamos com este número – garbage in, garbage out!

– Assume-se que as condições que determinam os valores do PH, tanto na era pré-industrial como no presente, são idênticas. Uma variável fundamental, a temperatura, fica excluída, ignorando-se que no Séc. XIX terminou a Pequena Idade do Gelo e, desde então, já houve vários ciclos de aquecimento e arrefecimento;

– Os modelos computorizados (que já falharam na previsão da evolução climática dos últimos quinze anos) não são capazes de processar a quantidade de variáveis que interferem em sistemas muito complexos ou caóticos. Mesmo que fossem, é humanamente impraticável introduzir todas as variáveis, sobretudo em sistemas que ainda não compreendemos bem. Mesmo assim, as previsões de PH apresentadas são formuladas por modelos informáticos, sendo estes valores resultado do feedback às variações do CO2 atmosférico;

– Para não ser acusado de cherry-picking, transcrevo duas frases integrais:

«However, the models project a consistent trend, which only worsens the decline in subsurface ½CO22 3 ; that is, all coupled climate models predict increased evaporation in the tropics and increased precipitation in the high latitudes24. This leads to greater upper ocean stratification in the high latitudes, which in turn decreases nutrients (but not to zero) and increases light availability (owing to more shallow mixed layers).»

Ah?! Os modelos que preveêm o Aquecimento Global de Origem Antropogénica, preveêm como consequência o aumento da pluviosidade nas latitudes mais elevadas. Mais pluviosidade significa maior estratificação na parte superior da coluna de água dos oceanos? Ou sou eu que não percebo nada de física ou isto é um disparate pegado! Mais precipitação causa maior mistura na parte superior da coluna de água, ou sou eu que estou enganado?

– Os pterópodes, micro-organismos com conchas baseadas em cálcio, andam no planeta há mais tempo que nós, sobreviveram e evoluiram com oscilações gigantescas de temperatura, CO2 global, carbonatos dissolvidos na água, etc. E quando a Humanidade evoluir ou se extinguir, eles hão-de continuar por cá! A adaptabilidade é a chave da sobrevivência. Agora, apanhar os coitados dos bichos vivos e adaptados a um determinado meio, deixá-los dois dias em água com o dobro da acidez, verificar o óbvio – as conchas começam a dissolver-se – e usar isso como argumento?!

Caríssimos… Caso tenham interesse, leiam o artigo em anexo, façam a vossa pesquisa e tirem as vossas opiniões.
Cumprimentos!
António Gaito

Orr_OnlineNature04095.pdf

Ainda sobre o Exame Nacional de Física e Química

14/03/2011

Date: Fri, 16 Jul 2010 18:57:36 +0100

Viva!
Hoje, com mais tempo, fiz uma breve pesquisa sobre a autora do texto que o Ministério da Educação apresentou. Já agora, a resposta pretendida era:

«

CRITÉRIOS ESPECÍFICOS DE CLASSIFICAÇÃO

 

1.1.

…………………………………………………………………………………………………………………………….. 5 pontos

Aumento da acidez da água do mar ou diminuição da concentração de iões carbonato em

solução.

1.2.

Versão 1 – (D); Versão 2 – (C) …………………………………………………………………………………. 5 pontos»

E desde quando é que um PH de 7,8 é ácido? E o erro fundamental, subjacente a isto tudo, que é o facto de primeiro ser necessário um aquecimento dos oceanos para, daí a uns milhares de anos, o CO2 acumulado ser libertado para a atmosfera, ou pelo contrário, um arrefecimento oceânico que daí a milhares de anos vai causar a absorção de CO2 atmosférico?

Mas quem é a Jennifer Steinberg Holland que escreveu aquele texto? É uma redactora-sénior da National Geographic com formação em biologia conservacionista e com um historial de artigos alarmistas como alegado o degelo do Ártico ou o fantasioso risco de extinção das lesmas do mar. Chega até a escrever num artigo sobre uma expedição em que participou que a espessura da calote ártica diminuiu 40%, o que é claramente ridículo!

A edição de Novembro de 2007 desta revista, da qual o texto foi tirado, também está cheia de alegações pseudo-científicas que não encontram justificação nos dados que qualquer pessoa pode pesquisar. Por exemplo, um ensaio fala das «Novas Contas do Carbono» e, começando por dizer que é impossível prever os efeitos de uma duplicação do CO2 atmosférico, parte de seguida para previsões sobre isso mesmo. Claro que quem diz que a Humanidade se desenvolveu a uma temperatura média de 14 graus centígrados e que isso agora está a mudar, não fez o trabalho de casa. Já vos enviei, em emails anteriores, gráficos sobre as alterações de temperatura respeitantes a 150, 2000, 400k e 800M de anos atrás que mostram a falsidade deste tipo de afirmações. Ou a alegação de que «o aquecimento já registado iniciou o descongelamento de quase tudo o que havia congelado sobre a Terra, alterou as estações e os padrões de pluviosidade e provocou a subida dos níveis do mar» que, também anteriormente já demostrei ser totalmente falsa.

Como é que “junk-science” deste tipo é publicada na National Geographic? Da mesma forma que, tanto na revista como nos canais de televisão, passam o credo alarmista sobre temperaturas infernais, subidas do nível do mar impossíveis, glaciares a derreter (mesmo os que não estão!), e pregam o credo ambientalista, vegetariano, socialista e anti-desenvolvimento… Mas calam-se quando alguma dessas alegações se prova estar errada!

Já vimos, portanto, que um texto de uma revista não peer-reviewed foi incluído num Exame Nacional e que era exigido aos alunos que concordassem sobre a acidificação dos oceanos. E se alguém mais informado respondesse que nem os mecanismos são bem compreendidos nem as variações de PH referidas são credíveis, o que é rigorosamente verdade? Perderia 5 pontos em 200? Que sistema de ensino é este em que um aluno não pode chumbar por faltas, e no entanto, é penalizado nas notas se der uma resposta correcta, mas, contrária àquilo que o sistema pretende? Nos países comunistas, quando se perguntava aos alunos o nome dos regimes ocidentais, a resposta pretendida era “capitalismo” e, no caso dos EUA e Reino Unido, a melhor pontuação era dada a quem respondesse “imperialismo capitalista”. Se alguém respondesse “democracia”, não só era penalizado como podia arranjar complicações com as polícias políticas! Alguém vê diferenças entre os dois casos?

A conclusão que podemos tirar disto é só uma: o sistema de ensino nacional degradou-se de tal modo com as teorias pedagógicas pós-modernistas que, no presente, em vez de ensinar, é um meio de doutrinação ambientalista/socialista, tal como transparece ao analisar os programas das principais disciplinas.

Cumprimentos!

António Gaito

Religião ecologista no Exame Nacional de Física e Química

14/03/2011

Date: Fri, 16 Jul 2010 01:20:35 +0100

Viva!
O Exame Nacional de Física e Química, realizado este dia 15, não escapou à catequese ecologista. Mais uma vez, Lord Monckton tinha razão quando disse, e repetiu no documento em anexo:

«yesterday they called the climate scare “global warming”; then, when warming stopped, they

called it “climate change”; then, when the climate changed no more than usual, they called it “energy

security”; then they would probably try to call it “ocean acidification”; and eventually they would have to

call the climate scare what it is: absolute rubbish».

Pois é, vem ai a acidificação dos oceanos! Embora o PH da água do mar varie conforme a região e a altura na coluna de água, esta é sempre alacalina, mesmo que se dê uma maior absorção de CO2, mas, isto não convém dizer… O que é que vos assusta mais? A água ficar menos alcalina, aproximar-se da neutralização ou ficar mais ácida? É a mesma coisa, mas, a palavra ácido assusta mais! Afinal, é assim que se faz uma evangelização: ou acreditas ou vais para o Inferno!

Embora as questões sobre o efeito dos ácidos no carbonato de cálcio sejam recorrentes – podem ver o enunciado do Exame no link acima -, deixo abaixo apenas a transcrição do primeiro texto e das duas primeiras questões para verem a “junk science” – ou ideologia oficial – impingida nas escolas.

Confronte-se o texto do Exame Nacional com os perguntas 281 a 296 da resposta do Lord Monckton ao vídeo do Professor John Abraham que envio em anexo.

Cumprimentos!

António Gaito

Excerto:

1.

Leia o seguinte texto.

A vida dos organismos marinhos com concha enfrenta uma nova ameaça: o aumento do nível de

dióxido de carbono (CO2) atmosférico.

Os oceanos absorvem naturalmente parte do CO2 emitido para a atmosfera, dissolvendo-o nas suas

águas. Uma vez em solução, o CO2 reage, tornando a água do mar, actualmente a um pH de cerca

de 8,1, menos alcalina. Como se continua a emitir enormes quantidades daquele gás, o impacto começa

a notar-se – os cientistas mediram já um aumento de acidez de cerca de 30% na água do mar e prevêem

um aumento de 100 a 150% até 2100.

O aumento de acidez é acompanhado por uma diminuição da concentração de iões carbonato em

solução. Assim, muitos organismos marinhos, que dependem do carbonato da água do mar para

construírem as suas conchas e outras componentes duras, perderão a capacidade de construir ou de

manter essas estruturas vitais.

J.S. Holland, «A ameaça ácida»,

National Geographic Portugal, Novembro 2007 (adaptado)

1.1.

Refira, com base no texto, um factor que ameaça a vida dos organismos marinhos com concha e

que é devido ao aumento da concentração de CO

2 dissolvido na água do mar.

1.2.

Seleccione a única opção que permite obter uma afirmação correcta.

Entendendo por acidez de uma solução a concentração hidrogeniónica (

[H3O+

]) total existentenessa solução, um aumento de acidez de cerca de 100% na água do mar, em relação ao valor

actual, determinará um

pH de cerca de…

(A)

4,1

(B)

8,4

(C)

16,2

(D)

7,8

monckton-warm-abra-qq2.pdf

 

Mais um mito desmistificado

14/03/2011

Date: Sun, 14 Feb 2010 01:03:47 +0000

Com as devidas vénia e referência (http://tira-tira.net/2009/08/14/caralho-e-cona-finalmente-na-nossa-lingua/) , para desmistificar de uma vez por todas o mito acerca da etimologia do portuguesíssimo “caralho”, segue abaixo uma transcrição que expôe o mito urbano que associa esta palavra ao mastro principal ou à cesta de vigia dos navios da expansão ultramarina. De facto, há registo de “caralho” no Séc XII, muito antes dos avanços na engenharia naval ocorridos no Séc. XV. Embora não tenha a mística nacionalista apresentada no mito, julgo de interesse académico a divulgação para que possamos, com pleno conhecimento do seu significado, andar de “caralho na boca”.

Cummprimentos!

António Gaito

Caralho e cona finalmente na nossa Língua

August 14th, 2009 Depois de anos de luta por parte de entusiastas do bom uso da língua – onde se incluem, entre muitos outros, Saramago, Graça Moura ou CiEL -, os guardiões da chave do sistema, i.e., as editoras que publicam os dicionários e, por esse meio, “legitimizam” o uso que lhe damos (à língua), começaram finalmente a ceder e a dizer “não!” e “ah, chega, foda-se!”, à patética censura que tem espirrado nhaca viscosa sobre os grossos volumes que registam o nosso vocabulário, e que se pretendiam completos e rigorosos.
A atitude puritana, que bloqueava a integração de termos tão coloridos quanto essenciais à comunicação do dia-a-dia de portugueses e portuguesas, e que pretendia, porventura, colocar tão distinto povo, no plano do inter-relacionamento oral, ao nível de uma qualquer comunidade evangélico-creacionisto-fascista perdida no meio de uma metrópole norte-americana, estará, assim, à beira de ficar tão extinta como os dinossauros e a Green Sands.
É, pois, com manifesto prazer e, até, algum alívio, que desde há algum tempo podemos encontrar nos dicionários online da Porto Editora e da Priberam as palavras que todos usamos no nosso quotidiano, mas que, “misteriosamente”, se recusavam a ser dicionarizadas – algo que enfurecia, e com toda a razão, linguistas e simpatizantes, dando azo, inclusive, a consultas em tom de protesto enfurecido no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (Deus da Língua na Internet, e nosso pequeno consolo pela dor da resistência ao assassinato dos particípios passados duplos).
O “sistema” desistiu finalmente de ser pateta. “Caralho”, “cona”, “foder”, verdadeiros sustentáculos da nossa cultura e da nossa língua, são agora “oficiais”, e estão disponíveis abertamente e sem registos e “passwords”, para consulta de todos os que os melhor queiram entender. As definições ainda não serão perfeitas, nem tão completas quanto seria de desejar, mas temos de compreender que se trata de um esforço levado a cabo por pessoas que, até há pouco, se referiam a termos desta natureza como “a palavra começada por c, com quatro letras”. Será, talvez, uma questão de tempo, até que deixemos de ver nos média mainstream registos como “c…” ou “f…” e outras parvoíces? Ficamos à espera.
Foder
(latim futuo, -ere, ter relações sexuais com uma mulher)
v. tr. e intr. 1. Cal. Ter relações sexuais.
v. tr. e pron. 2. Cal. Deixar ou ficar em mau estado, destruído ou prejudicado.
Cal. foda-se: expressão designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.
Sinónimo Geral: fornicar
(priberam.pt)
verbo intransitivo: vulgarismo, ter relações sexuais; copular
verbo transitivo: vulgarismo, prejudicar; deixar em péssimo estado
verbo pronominal: vulgarismo, prejudicar-se; ficar em péssimas condições;
vulgarismo, foda-se! exclamação que exprime espanto, admiração, impaciência ou indignação
(infopedia.pt)
A esquerda “paritária” poderá ficar irritada com a referência à origem do termo pela Priberam (sexo com uma mulher), por cheirar não só a homofobia como a um asqueroso sexismo. Os gays quando vão ao cu um ao outro não estão a “foder”? A mulher não “fode” – a sua prática tem de ser agriolhada por formas verbais apassivantes? -, só é “fodida”? Por outro lado, essa ala política radical louvaria a Porto Editora que ignora essa origem potencialmente não-PC. Uma e outra, no entanto, no que toca à definição, generalizam q.b.: “ter relações sexuais”. Deste modo, a palavra “foder”, na actual acepção, não descrimina género (mulher também fode), “activos” ou “passivos” (gay que leva fode, mas gay que dá fode também), ou espécie (foder um cão, um tronco de árvore ou uma fotocopiadora, tudo é válido, mas apenas no plano da língua, pois no mundo real são actos vis, além de que o toner é cancerígeno).
Mas, em defesa da Priberam, vestindo a toga do advogado do diabo – não, estou a gozar -, o que eles fazem apenas é referir a origem latina da palavra, por isso, ei, não venham com merdas. Há muitos anos era assim que “foder” se concebia. Bolas, ainda em meados do século XIX, a Rainha Victoria não acreditava que as mulheres pudessem sequer “foder” umas com as outras, coitada.
A definição é, afinal, bastante equilibrada e insusceptível de incomodar as pessoas mais sensíveis do Bloco de Esquerda. Atente-se ao equilíbrio paritário, inclusive no que toca à explanação dos sentidos figurados: um homem tanto pode ficar todo fodido (ferido, magoado) por ser atropelado por um carro, como pode foder um carro todo (atirá-lo contra um muro, quebrar os vidros com um taco de basebol, ignorar os períodos de revisão, etc.)
Caralho
s. m. 1. Cal. Pénis.
interj. 2. Cal. Expressão designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.
(priberam)
nome masculino
vulgarismo pénis;
caralho! exclamação que exprime espanto, admiração, impaciência ou indignação
(Do lat. *caraculu-, «pequena estaca»)
(infopedia)
De registar, apenas a flexibilidade da palavra. Nos exemplos, daríamos primazia também à expressão de alegria (”caralho!”), ao lado do espanto (”caralho!”) ou indignação (”caralho!”), nem que fosse por ser uma emoção mais positiva. Quando à origem do termo, desta vez é a Porto Editora que ganha, devendo frisar-se que a alegada origem nos cestos do topo dos mastros das caravelas é uma parvoíce tão grande como aquelas historinhas-da-Internet-para-as-pessoas-que-acreditam-em-tudo-o-que-está-na-Internet que explicam a origem de “fuck” como a sigla de “fornicar com consentimento do Rei”. Há gente que cai em tudo, pff.
Cona
s. f. cona (ô)
(latim cunnus)
s. f. Cal. Vulva; vagina.
(priberam)
nome feminino
vulgarismo órgão sexual feminino
(Do lat. cunnu-)
(infopedia)
Cona, nunca gostei muito (da palavra). Um professor do liceu, já há muitos anos, explicou que a origem do termo era “rede” em latim. Não sei se o professor estava certo ou errado, mas essa alegada origem está “na Internet”. O que sei é que, hoje em dia, esse professor fodia-se bem fodido por ter essas conversas com miúdos de 12 ou 13 anos.
O site da Priberam oferece outros tipos de informação aos utilizadores, como poder ver que no dia 1 de Junho houve um pico com 3547 procuras por “caralho” (num dia normal, apenas cerca de 500 pessoas fazem essa pesquisa). O mais relevante, no entanto, é a ligação para “palavras relacionadas”, mas é também aí onde se constatam as limitações que ainda existem no tratamento do nosso vocabulário.
Se formos a “cona”, o dicionário indica “conanas”, que define da seguinte forma: conanas (alteração de cona) s. m. 2 núm. Pop. Fracalhão; maricas. Ora, perguntamos, mas que caralho de palavra é “conanas”? “Coninhas” (não dicionarizado ainda) conhecemos (e até achamos simpático), mas “conanas” parece fruto de – não, não, deixem-me reformular, parece um fruto, ou um cocktail que se serve num bar do Bairro Alto, e que é uma grande merda porque só existe por causa do nome “engraçado”.
Nas relações com “caralho”, por outro lado, a única coisa que arranjaram foi “pénis”. Apesar da definição bastante lata, faltam exemplos de utilização e derivações do termo. Deveriam registar-se algumas utilizações mais frequentes em expressões, como “vai para o caralho!”, “- comò caralho”, “caralho mais velho”, etc.
Ainda quanto ao “caralho”, sugeríamos, desde já, a entrada “caralhãozãozorro!” (cal. s.m. forma de expressar um estado de irritação em que se está fodido para lá de fodido), apesar da dificuldade em integrá-la na língua por causa dos dois tiles.
Até ao momento, não nos foi ainda possível verificar se os termos agora “aprovados” já se encontram nas últimas edições em papel dos principais dicionários destas editoras, mas prevemos que o dia em que um tradutor que pretenda passar o insultuoso “vai-te lixar” por um “fuck you” do inglês, ou equivalente de outra língua, seja despedido com justa causa, está aí já ao virar da esquina. E finalmente, finalmente – para citar Brel, pois este texto saiu parquíssimo em citações -, o comum cidadão consumidor de cinema, sobretudo anglófono, deixará de achar peculiar que o banalíssimo “mas que caralho?!” seja usado para traduzir o seu equivalente natural “what the fuck?!”

P.S.: O site da Priberam tem as conjugações dos verbos, pelo que agora ninguém tem desculpa para escrever mal frases como “e se fodêssemos?”, “naquela tarde em que fodêramos”, “se vós foderdes muito, sereis mais saudáveis”, “foderíamos se não te tivesses armado em parvo”, “entrei no quarto e vós fodíeis, suas rameiras”, etc.

Conversa de Café

14/03/2011

Date: Thu, 29 May 2008 22:51:33 +0100

Caríssimos.
Na sequência da conversa que tivemos esta tarde na Central, envio-vos uma pérola jornalística: a entrevista que a quenga da Clara Pinto Correia efectuou ao Prof. Dr. João Medina, datada de 20/03/2007:

«João Medina
COMO QUEM VIU TUDO
»

João Medina, 66 anos, Professor Catedrátrico do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nasceu em África e viveu no mundo. Casado há 43 aos, sem filhos, deixou uma miríade de obras publicadas ao longo do caminho. E agora, como uma verdadeira pedrada no charco do marasmo do panorama literário nacional, ofereceu-nos um romance impressionante de lucidez e rigor, Os Náufragos do Mar da Palha, erguido acima de todas as banalidades que se escreveram em 2006 como um monumento de inteligência e bom gosto saído dos dedos dotados de alguém que viu tudo. Este grande académico é, também, um grande escritor. Anima-o a alegria de partilhar ideias difíceis e conhecimentos raros que está por trás de todos os grandes marcos do romance universal. Considera-se a si prório um dissidente, e herdou uma história de família toda marcada pelas dissidência: descende de um clã português deportado para Cabo Verde por D. Miguel, partindo daqui para a vida no mundo numa história tão feita de aventuras e naufrágios como as trágico-marítimas.

A casa de João Medina no Monte Estoril está aninhada num nono andar com uma vista inesgotável para cima do mar. Os livros dominam o interior, e onde se afastam do caminho revelam áreas de convívio ou de trabalho onde apetece demorar a passagem. Mesmo sem perguntarmos, sabemos que tudo tem uma história própria que o proprietário acarinha. O sol entra a jorros pelas janelas, e ele não pára de me trazer chávenas café da cozinha: cheguei aqui em bastante mau estado, depois de uma longa noite em directa, e esta paz sabe-me pela vida. Quis falar da apatia e do alheamento do povo português em relação à história, diz ele.

Como é que podes chamar apático ao povo que fez as Descobertas?

E as Descobertas serviram para quê? O império colonial não era útil, não era rentável, do ponto de vista conómico não servia para nada.

Mas era empolgante.

Eu vejo-nos mais como uma nação falhada. Fez-se aquele império sem existir um projecto colectivo de desenvolvimento.

Faltaram contribuições importantes?

Estás a referir-te aos judeus? Mas nós fomos mais longe que isso. Não expulsámos só os judeus. Constituímos uma sociedade talibã à portuguesa que levou à expulsão de outros grupos, como os liberais ou os protestantes. Quem ficou instalou-se num tal conformismo que aceitou as situações mais aberrantes.

Foi mesmo a expansão marítima que causou tudo isso?

Antes da expansão marítima, temos um projecto colectivo em que está envolvida toda a população: atingimos o auge de lusitanidade que está tão bem representado nos paineis de Nuno Gonçalves, com o povo, o clero, a nobreza, e diz-se que até um rabino. Existia uma pluralidade que implicava todos os extractos da sociedade.

Essa pluralidade desapareceu com o império?

O império foi a nossa grande faina histórica, mas nem sempre correu bem e teve um preço pesado. A nossa última tentativa imperial, depois do fracasso da Ásia e do Brasil, foi o Portugal Africano, na sequência do triunfo liberal. Mas os homens como o naturalista Bocage conduziram à tragédia do mapa cor de rosa, um dos maiores desastres da nossa política colonial. Resta-nos o mito do terceiro império, acarinhado pelo governo, que perdura até ao 25 de Abril. Só nessa altura é que se fecham as portas do império, e voltamos a ser quem somos.

E quem somos, afinal?

Somos europeus. Mas parece que a Europa não chegou aqui. Nunca fomos bons alunos europeus. Somos marginais em relação à Europa. Não temos a consciência europeia que nos tornaria prósperos.

Que consciência é essa?

A União Europeia foi criada pelos seis países mais ricos da Europa, e, originalmente, destinava-se a ser um clube de ricos, onde se juntavam os países de grande sucesso económico. Nós entrámos para um clude desses com a ideia de ser um país evoluído, mas o sonho europeu português falhou. Só não estamos mesmo na cauda por causa da Roménia e da Bulgária, mas eles vão ultrapassar-nos.

Como é que defines essa situação?

É amargurante. Como historiador e romancista, creio que estamos perante um facto dramático: não temos a grande cultura europeia, que chegou a prosperar entre nós nos séculos XV e XVI mas logo a seguir foi prevertida pela inquisição. Não aproveitámos as oportunidades que a Europa nos deu. Somos uma espécie de Mónaco, mas para muito menor. Dado o estado de total debilidade económica em que nos encontramos, estamos verdadeiramente na periferia da construção da Europa comunitária sonhada por Jean Monet.

A ouvir-te falar, parece que a expulsão dos Judeus no século XV contribuiu decisivamente para esse estado de coisas moderno.

A primeira sinagoga do Novo Mundo, o Rochedo de Israel, no Recife, foi criada durante a ocupação holandesa por judeus portugueses – uns assumidos e perseguidos, e outros refugiados na Holanda. Isto foi em 1638. Em 1654 partiram para Nova Iorque, então Nova Amsterdão, onde criaram as primeiras comunidades sefarditas, e primeira sinagoga de Nova Inglaterra, e depois, no século XVIII, também criaram uma em Curaçao. Estamos a falar de pessoas extremamente empreendedoras.

Mas as Descobertas correram mal também por outras razões.

É uma história exemplar de má visão: a construção do império português foi sempre feita por via estatal, enquanto que a Holanda fez companhias por acções, que em alguns sítios continuam a funcionar. Essas companhias, aliás, tinham um forte capital de judeus portugueses. A lei que permitiu o estabelecimento desse capital judeu nunca foi feita em Portugal. Aqui, como o império era monopólio do Estado, e como tínhamos uma religião única que ia de par com o Estado, com uma polícia política e um tribunal persecutório que era a Igreja, isso tornava a Igreja completamente monopolista e anti-tolerante, em contraste total com o que se passava na Holanda. Repara, só quando os holandeses libertaram a região de Pernambuco é que se fizeram lá sinagogas. Mas esses judeus eram portugueses, mais portugueses que o Viriato, que nunca foi português na vida: foi um chefe celta que se levantou contra os romanos, e quem nos deu a língua que usamos foi Roma. Quem nos deixou a Lusitânia também foram os romanos. Basicamente, Viriato é um inimigo dos nossos pais.

Bem, mas a partir de 1821 os judeus puderam voltar a Portugal.

E o status-quo mudou por causa disso? Mantivemos sempre um Estado emparelhado com a Igreja. Nem os ingleses, em que o rei é por inerência o chefe da Igreja anglicana, fizeram isto. A Igreja anglicana inglesa não era um dos pilares do império britânico.

Não estás a subestimar um dos aspectos mais positivos do império português, que foi a grande miscigenação racial a que deu origem, essa sim, amplamente acarinhada pela Igreja?

São desculpas de um país pouco habitado.

Mas o Afonso de Albuquerque, na qualidade de primeiro vice-rei da Índia, fez passar uma lei sobre a prioridade dos casamentos mistos…

Pois com certeza, eles não levavam mulheres!

Queres tu dizer, prostitutas e criminosas, como os holandeses e os ingleses?

Não eram mulheres?

Então estás a dizer-me que a miscigenação portuguesa não é uma maravilhosa manifestação da nossa alma profunda?

Isso é um mito. Ouve lá. O Salazar, quando já a Europa inteira nos criticava por ainda termos um império colonial, foi buscar um brasileiro chamado Gilberto Freire, que achou que nós tínhamos inventado uma grande tolerância sexual, política e religiosa que seria o luso-tropicalismo. Claro que isto caiu como música celestial nos ouvidos do império. Mas é conversa, como é evidente.

Mas quando o Gilberto Freire fala do nosso entrosamento ecológico com o mundo que descobrimos, o encontro entre a razão e a natureza, não tem nem um bocadinho de razão?

Claro que não. Para haver encontro com a natureza era preciso que os portugueses tivessem explorado a selva, e nós limitámo-nos a andar de lado, como o caranguejo, sempre ao longo da costa. Entrámos muito pouco na selva. Toda a conversa piedosa da miscegenação é um bluff completo. Estou a basear-me em experiência própria. Visitei populações em Moçambique que nunca tinham ouvido falar português. A construção de um império multicultural de grande tolerância nas relações humanas é um bluff, que aliás foi desde logo denunciado como tal pelos dirigentes africanos, como o Amílcar Cabral.

E na vida quotidiana nas ex-colónias? Também não havia miscigenação?

Os assimilados foram sempre uma minoria. No liceu, eu tinha um colega indiano e um colega negro. E disse. Em termos económicos e sociais não havia mistura. Os negros não eram reconhecidos enquanto grupo social de pleno direito. A disseminação dessas ideias foi uma impostura política e económica descarada e bem calculada. Nunca houve uma sociedade permeável. Em Moçambique os europeus eram muito influenciados pelas políticas racistas da África do Sul, as classes dominantes eram extremamente ricas, e o racismo quotidiano era muito evidente.

Eu era miúda e lembro-me de Lisboa estar cheia de outdoors a dizer “Moçambique: Praias de Sol, Praias de Sonho”. A foto mostrava um grupo de pretos e brancos em amena confraternização. Estávamos a ser enganados?

Pois claro. Olha, eu ia à praia do Polana, que é muito pequenina e está toda fechada por redes por causa dos tubarões. E nunca, mas nunca me lembro de ter visto famílias negras a tomarem banho ao lado dos brancos, que se refugiavam num clube muito selecto.

Mas não podíamos ser tão pouco tolerantes do ponto de vista regioso como isso. Por exemplo, antes do Terramoto Lisboa etava cheia de protestantes ingleses que negociavam no ouro do Brasil. Até se disse que Deus tinha mandado aquele desastre para protestar contra a presença em Portugal de tantos protestantes…

Uma coisa é um comerciante que vem cá negociar, outra coisa é ser cidadão português. A constituição liberal de 1826, que se manteve válida atá ao 1910, dizia logo no primeiro artigo que a religião do país era católica e que os outros cultos só podiam ser mantidos privadamente. Podiam construir-se sinagogas e templos, mas só virados para dentro e murados. Só os católicos é que podiam ter igrejas grandes. No século XX, a sinagoga da Alexandre Herculano abriu as portas para a rua – mas atenção, atrás de um muro.

Ok, mas fazemos coisas bem feitas. Fizemos o 25 de Abril, por exemplo.

Essa revolução foi uma pseudo-revolução. Tanta gente com medo da tomada do poder pelo proletariado quando o proletariado não estava obviamente interessado em tomar o poder, tanto namoro com o modelo estalinista, tanto tempo perdido até se aceitar um modelo do tipo pluralista, e claro que tudo isto atrasou a nossa recondução à Europa democrática. Quando finalmente entramos na Europa e estão criadas as condições para se iniciar um verdadeiro desenvolvimento, estagna-se.

Ai, João. Portugal não tem nada de bom?

Tem a vista da minha janela. Portugal é um país defeituoso, cheio de arcaismos difíceis de superar porque somos um país inerte, sem nada de europeu, sem cultura europeia, sem desenvolvimento sustentável e coerente em termos do modelo económico que a Europa devia constituir. Estamos atrasados em relação ao que podíamos ter feito e seguramente reduzidos à lanterna vermelha dos 27 países europeus.

E o que vês na Universidade? Não te anima?

Temos uma Universidade anquilosada, tanto nas Humanidades como nas Ciências, que está muito longe do que eu vi nos Estados Unidos, em Itália, e na Alemanha. E no Brasil, também. Há uma grande degradação da cultura geral dos alunos. Há um desinteresse completo pelos instrumentos científicos e culturais do nosso tempo. Os meus alunos não sabem quem é o Stravinsky, não sabem quem é o Darwin, nunca encontro um tipo que tenha lido o Max Weber ou pelo menos As Farpas do Raul Brandão. A incultura tem vindo a crescer em Portugal, e isso ainda é mais grave quando se sente no campo universitário.

Bom, mas, pensando bem, o canibalismo tem vindo a diminuir. És um pessimista profissional?

Sou um dissidente e um heterodoxo, e gosto destas palavras porque a geração de 70 também foi clasificada assim. Faz-me pensar nos russos que tanta importancia tiveram no desmoronamento da horrível ditadura estalisnista. Sendo membro de uma família marrana, tive uma carreira muito pouco habitual: nasci em África, passei a infância em Joabesburgo, fui para Direito, em Direito descobri a democracia e militei na campanha do Humberto Delgado, vim para Lisboa estudar Filosofia com uma tese sobre o Holocausto e participei nas Greves estudantis de 1962. Fui aliciado várias vezes para entrar para o PCP, mas resisti. Sou um independente, sempre fui.

Até disseste que o Salazar não era fascista…

Nem tinha formação para isso. O Salazar foi um fruto provinciano e bacoco da I República, que durou de 1910 a 1926 e, em dezasseis anos, teve 47 governos. Foi esta instabilidade terrível, este caos absoluto, que permitiram ao Salazar fazer um percurso que ele nunca teria conseguido fazer de outra forma, e impor-nos o Estado Novo durante 48 anos. Mas também sou independente na maneira como estudo história. Interessam-me os símbolos, as representações psicológicas, os aleijões espirituais como o anti-semitismo, as referências populares como o Zé Povinho. Dei a minha aula das provas de agregação sobre o manguito. O que é que achas?

Não posso, é claro, deixar de vos enfastiar com este artigo de 2004, publicado pelo Jorge Fallorca:

«O que é ser-se estrangeiro?

Pois bem, começo pelo que, talvez por ser tão evidente, me parece que nunca ninguém reparou, ou quis reparar. A primeira, foi a mania da vanguarda, um mito provinciano de que padecem os espíritos tíbios ansiosos por protagonismo. Assim, ainda as pátrias ibéricas estavam longe de se encontrarem definidas, e resolvemos desatar a berrar por independência, inaugurando uma avalanche de movimentos de autonomia, libertários, emancipadores, chame-lhes como quiser, que culminou com a suposta independência de um país que se encontra num estado, desculpe-me a expressão, que até para cagar tem de pedir licença ao vizinho, para lhe fornecer o papel higiénico, não é verdade? Depois, como se um azar já não bastasse, decidimos lançar-nos na empresa épica — é assim que os compêndios continuam a referi-los, não é? —, dos descobrimentos. Não conseguimos roubar um terço do que roubaram todos os outros que se nos seguiram, como pretende o nosso ego de candeia que julgava que ia na frente, e quando chegou a hora, tardia, tardia, como sabe, de darmos às de vila diogo, fomos acusados de roubar o triplo, de chacinas que transformaram todas as outras em simples acidentes de um percurso corrigido a tempo. Antes de sermos devolvidos à procedência donde — na minha modesta opinião — nunca deveríamos ter saído, depois de Ksar-El-Kebir, quando nos foi dada uma última oportunidade de voltarmos a integrar o conjunto das pátrias ibéricas de que fazemos parte, não parámos enquanto não nos encontrássemos outra vez orgulhosamente sós, e a levar porrada de toda a comunidade civilizada. É assim que se diz não é, civilizada? Coisa estranha, num país que se habituou a não fazer nada e a dar cabo de tudo o que por artes mágicas ainda lhe vão dando, e que passa a vida a choramingar baba e ranho por investimento estrangeiro — pudera, que outro poderia ele pedir se tudo aquilo em que alguma vez investiu só deu merda? —, sem no entanto ter a coragem e a honestidade de dizer: bom, estrangeiro, mas não castelhano. Esquisito, não acha? Ou será que afinal, bem, bem lá no fundo, não os consideram estrangeiros? Ou será tão grande a demência, o ódio, que nem estrangeiros os consideram? Deixo-lhe a si a resposta… E já agora, o amigo, insisto, que estou certo que é uma pessoa inteligente e culta, se for capaz, agradeço-lhe que me explique o que é ser-se estrangeiro.»

Acrescento um artigo de Novembro de 2007, da autoria da professora Olinda Gil, uma mulher que deixou a Universidade do Porto para se dedicar a duas paixões – a divulgação histórica e as aulas no ensino básico:

«D. João V

A época de D. João V foi o período de maior fluxo de ouro brasileiro, mas o aumento da receita pública e privada não se repercutiu em transformações duradouras no plano económico, ou em modificações sensíveis na estrutura social portuguesa.

O rei consumiu quase tudo quanto ao estado coube do rendimento das minas brasileiras na manutenção de uma corte luxuosa e em gastos enormes relacionados com o prestígio real, no entanto, o dinheiro não podia, por si só, resolver nenhum problema. A sua utilização reflectia a mentalidade e formação das pessoas que o utilizavam.

A época de D. João V caracteriza-se pela inexistência quase completa de quadros empresariais, pela falta de gente preparada para se servir da riqueza como instrumento criador de nova riqueza.

Em Portugal, havia falta de elites em todos os campos: na cultura, na arte, na política, na economia. A inexistência de empresários activos conduziu ao não surgimento, nas épocas do ouro, de empreendimentos reprodutores de riqueza.

O Tejo era apenas um porto de passagem de valores que afluíam a regiões de economia mais desenvolvida, produtoras dos bens que os portugueses consumiam mas não sabiam produzir. A Inglaterra foi a mais beneficiada dessas regiões.

A abundância do ouro atraiu vários estrangeiros, que procuravam instalar indústrias ou eram encorajados pelo Estado a produzirem em Portugal os bens importados. A maior parte destas iniciativas saíram malogradas por falta de organização económica.

A mais importante realização pessoal de D. João V foi o projecto de construção de um edifício gigantesco, de proporções que excediam de longe tudo quanto até então se edificara em Portugal: o Palácio Convento de Mafra.»

Citando um dos mais ilustres pensadores da nossa história, Pe. António Vieira, «assim me despeço e vos despido». Haveis de me aturar enquanto as vísceras mo permitirem…

Trabalho da minha colega

14/03/2011

Date: Fri, 11 Apr 2008 00:23:47 +0100

Aproveito e envio esta pérola da língua portuguesa, ilustrativa da capacidade do nosso sistema escolar em produzir alunos dignos do ensino superior.

marisa.doc


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