Sobre a nossa capacidade submarina

Date: Sat, 27 Nov 2010 03:31:15 +0000

Viva!
Enquanto me informava sobre a capacidade norte-coreana no que diz respeito a obuses de artilharia termobáricos (nem sabia que tal coisa pudesse ser compactada em projécteis de 152 ou 155 mm, encontrei este artigo sobre os dois submarinos adquiridos pela Armada que passo a reproduzir:

Na passada semana, foi finalmente efectuada a cerimonia oficial de recepção do primeiro de dois submarinos da marinha de guerra portuguesa, foi recebido o NRP Tridente que se seguirá o NRP Arpão,

Não é função deste site, tecer muitas considerações sobre todos os escândalos e pseudo-escândalos que terão envolvido a questão da aquisição dos submarinos. Tais questões são necessariamente acessórias e têm sido utilizada como arma de arremesso entre políticos, que colocam os seus interesses partidários acima dos interesses do país.

Perante a irresponsabilidade dos políticos, compete ao cidadão que pretende estar informado, que se preocupa com questões relacionadas com a defesa, mas que perdeu toda a confiança na classe política, saber se o seu dinheiro foi bem gasto e se quem tomou a decisão de adquirir aqueles sistemas de armas tomou uma decisão correcta do ponto de vista técnico, tendo em consideração o interesse nacional e os dados publicamente disponíveis.

Se aquela opção de compra é justificável, o cidadão naturalmente dará a importância devida às críticas que são movidas por interesses mesquinhos de políticos (incluindo-se aqui os do sexo feminino, em exílios dourados no Parlamento Europeu) que só se preocuparam com contrapartidas, quando perceberam que os cofres do seu partido não receberiam contrapartida nenhuma.

O concurso

Estas linhas limitam-se a lembrar muito por alto o que grande parte dos interessados no tema já sabe.

A marinha portuguesa lançou no inicio dos anos 90 um concurso internacional para a substituição da sua envelhecida frota de quatro submarinos da classe Daphné, adquiridos quando o primeiro ministro era ainda Oliveira Salazar.
Numa primeira fase houve vários concorrentes que foram eliminados e propostas alternativas que também não foram consideradas satisfatórias.
Exemplo disso é a oferta feita a Portugal pela Grã Bretanha de submarinos em segunda-mão, mas quase novos. Tratava-se de navios da classe Hupholder (deslocamento submerso de 2.455ton e tripulação de 47 militares). Estes navios que acabaram sendo fornecidos ao Canada eram um projecto desenhado no final dos anos 70 e considerado demasiado grande e relativamente ultrapassado.

Outros projectos foram eliminados, entre os quais um projecto holandês, outro italiano e outro sueco.
O que é importante frisar é que quando se aproximou a altura da decisão final havia duas opções em cima da mesa. Uma delas era o submarino francês Scorpene, que estava já em construção embora ainda não tivesse entrado ao serviço e um projecto alemão, baseado nos submarinos do tipo U-209, desenhados nos finais dos anos 60.

AIP

O principal factor que distinguia os submarinos que chegaram à fase final dos restantes, era a possibilidade de inclusão de um sistema que permite ao submarino manter-se debaixo de água durante mais de duas semanas, mantendo assim uma total discrição.
Tanto o submarino francês Scorpene como o alemão U209-1500[1] apresentavam esse sistema como opção, podendo a marinha comprar o submarino sem ele, optando por instala-lo no futuro.

O sistema AIP (Air Independent Propulsion ou Sistema de Propulsão Anaeróbico) torna possível locomover o navio debaixo da água, sem recurso a um «Snorkel», tal como acontece com os submarinos de propulsão nuclear, ainda que a velocidades muito menores.

A estranha designação «U209PN»

Provavelmente a questão menos «limpida» no caso dos submarinos, para quem a analisa desde fora e tecendo considerações ligando as pontas conhecidas, foi o que aconteceu de seguida:

Conforme foi noticiado pela imprensa e se tornou assim semi-público, a marinha portuguesa terá mostrado preferência pelo modelo francês «Scorpene», porque este era mais moderno que o alemão «U209-1500» o qual tinha sido desenhado no final dos anos 60, ainda que profundamente modernizado.

Não é possível saber que informação os alemães obtiveram, como a obtiveram, ou se a obtenção foi feita de forma legítima.
Parece no entanto absolutamente claro para o observador externo, que só a certeza por parte do consórcio alemão de que os decisores na marinha portuguesa iriam escolher o francês «Scorpene», poderia ter explicado a absolutamente radical e arriscada alteração da proposta alemã que se seguiu, e que só pode ser considerada uma «rasteira».

O consórcio alemão arriscou tudo. Se até ali tinha apresentado uma proposta para vender um submarino U209-1500, quando fez o «último lance» do concurso, apresentou aos portugueses uma proposta não para o U209-1500, mas sim para o muito mais sofisticado e moderno U214. Tentou-se tapar o truque com sucesso, pois o U214 foi baptizado de U209PN [2]. Os franceses protestaram, o navio chegou a ser designado «U214 disfarçado», o advogado da DCN, José Miguel Júdice protestou nos jornais pedindo seriedade, mas a situação ficou por ali.

U214 alemão versus Scorpene francês

Se os franceses da DCN tinham vantagem com o Scorpene contra o mais antigo U-209-1500, a situação alterou-se completamente quando em vez dele foi apresentado o U214. Este sistema apresentava características que permitiam considera-lo um sistema de armas superior ao Scorpene francês, mas acima de tudo tinha uma característica que o diferenciava mais que todas as outras:
O U214 não tinha o AIP como opção, mas sim como sistema incluído à partida.
Comprar o U214, implicava entrar directamente no restrito clube de países que tinham encomendado submarinos com aquele sistema de propulsão.

Entre os problemas estava naturalmente o preço. O U214 aparecia sempre como uma opção mais cara, porque ele tinha que incluir o sistema AIP. Esta diferença, fez com que o preço aparente do submarino francês fosse mais reduzido, o que é normal, para um navio que não tinha aquele sistema .

Mas as razões para optar pelos submarinos alemães não se ficavam pelo simples facto de um possuir um sistema AIP de raiz e o outro não, pois neste caso, o submarino francês teria vantagem por ser mais flexível.

Ocorre, que os sistemas de propulsão anaeróbica alemão e francês são profundamente diferentes. Assim, o sistema alemão funciona com células de combustível, com energia eléctrica produzida por membranas onde se dá uma reacção química.
Este sistema apresenta entre outras, a vantagem de produzir relativamente pouco calor (80 graus centigrados) e de ser muito compacto.

Já o sistema francês, conhecido como MESMA, é uma turbina que funciona em circuito fechado e que atinge uma temperatura de 700 graus centigrados.
A DCN (o fabricante francês) alega no entanto que esta questão é pouco importante, já que a França tem experiência neste sector. Os franceses alegam que utilizam um sistema para arrefecer a turbina, que é derivado do mesmo sistema com que arrefecem os reactores dos seus submarinos nucleares, utilizando para o efeito a água do mar.

A argumentação procede, e dava ao Scorpene o ar de «derivado de submarino nuclear», mas isso não podia ocultar o problema do aumento da complexidade. O sistema francês, acabava sendo mais complexo e também mais volumoso, o que o era desvantajoso.

Prova de que o sistema é visto como inferior, é o facto de até as marinhas que adquiriram o submarino francês Scorpene, terem rejeitado o sistema MESMA, optando por não o instalar (Chile, Malásia, Brasil) ou por um sistema alternativo (Espanha) [3].

Estes factores, a superioridade dos sistemas submarinos alemães, a superioridade do sistema AIP alemão, e o facto de o navio alemão ser fornecido já com propulsão anaeróbica, explicam em grande medida o facto de o submarino alemão ser mais caro.

E se o submarino fosse um automóvel ?
A título de comparação e curiosidade, se os submarinos que estiveram a concurso fossem automóveis, estaríamos a comparar coisas diferentes, da seguinte forma:
De um lado temos uma viatura alemã na sua versão GT, que vem de série com tecto de abrir e Air Bag. A viatura alemã só é vendida com esses extras incluidos e o preço final ressente-se disso, tornando o veículo mais caro.
Do outro lado temos uma viatura francesa, na sua versão base, sem tecto de abrir nem Air Bag. Mas a versão francesa permite no futuro que se corte o tejadilho para colocar um tecto de abrir e permite adicionar um ar condicionado. Ambas as coisas podem ser feitas mais tarde. O preço inicial do carro francês, será no entanto sempre mais barato, porque não se sabe qual seria o custo real da instalação futura destes extras.

Além disso, e embora os dados oficiais continuem apenas a indicar uma profundidade de operação superior a 300m, várias estimativas sobre a real profundidade a que o submarino U214 pode operar, levam a especulações sobre a possibilidade de estes sitemas poderem atingir profundidades que superam tudo o que até hoje se atingiu em termos de submarinos convencionais.

Sempre se soube que o tipo de aço e configuração estrutural dos submarinos da série U214 era superior à dos U209. Também se sabe – porque o próprio fabricante o afirmou – que o seu meio-irmão também alemão o U212, que foi construído com um casco em aço especial amagnético, (que pelas suas características é muito menos resistente à pressão) é mais limitado no que respeita à profundidade máxima atingida, ainda que oficialmente ele também atinja uma profundidade superior a 300m.
Estes factos levam a especulações que resultaram em afirmações não confirmadas e não oficiais de que o navio pode atingir uma profundidade de 550m e uma profundidade de esmagamento estimada em 750m. Estes valores tornariam ainda mais clara a vantagem do U214 relativamente ao concorrente francês.

Conclusão
A Opinião Pública, não dispõe de meios para ajuizar sobre ilícitos que terão alegadamente ocorrido e de alguma forma estado relacionados com a aquisição dos submarinos da marinha portuguesa.

No entanto, tendo em consideração os factos conhecidos, as características técnicas conhecidas e a utilização a ser dada aos sistemas de armas, parece ser claro que mesmo com uma análise não exaustiva dos factos e dos dados que são do domínio público há uma conclusão inevitável:

Não pode ser posta em causa a validade da opção técnica que levou à aquisição do submarino U214 (ou U209PN, na sua designação oficial) em desfavor do concorrente francês Scorpene.

A marinha portuguesa adquiriu o melhor submarino e o que – quando completo com todos os sistemas – aparentava ter o custo mais baixo.

A opção fazia todo o sentido na altura em que a decisão foi tomada, e continuaria a fazer todo o sentido no dia de hoje.
A escolha do submarino Scorpene, se tivesse ocorrido, essa sim, teria sido um escândalo nacional.

Permitimo-nos mesmo acrescentar uma opinião:
Se todas as decisões de compra de armamentos, e se todas as decisões governamentais sobre vários dos problemas que afectam o país, fossem tão fundamentadas, tão lógicas e tão claras como as que levaram à aquisição do NRP Tridente e do NRP Arpão, viveríamos seguramente num país com menos problemas.

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